A Técnica e o Caminho – Uma Reflexão – Por Marcos José do Nascimento

No início de treino, a técnica está para o praticante como preocupação primeira, na busca do seu aprimoramento através dela, na busca de um determinado grau de controle dos movimentos, de forma a mostrar-se aos demais como conhecedor dela em algum nível.

 

À medida que o tempo passa, dentro da prática, permanece na técnica a preocupação central do praticante, dirigindo a ela toda a sua atenção, as suas energias, como fim primeiro e último de sua prática no âmbito do Dojô. Até mesmo pelo conhecimento que se vai estendendo para horizontes mais amplos, com maior número de técnicas e de combinação entre elas.

 

A situação não poderia dar-se de outra forma, uma vez que na realização de qualquer natureza, em fase de aprendizado ou de aprimoramento, o que se busca é conhecer e demonstrar determinado nível de controle sobre o conhecimento de que vai se assenhorando a pessoa, aos poucos.

 

Fora o fato de que, no âmbito das artes marciais, existe a prova prática perante uma banca examinadora, para a ascensão a uma graduação superior em relação ao que se encontra o praticante, situação geradora de ansiedade e de estresse na grande maioria dos que praticam as artes marciais, situação essa que, por si só, também contribui como um dos fatores determinantes, se não o principal, de busca constante de aprimoramento das técnicas em si.

 

Não obstante a técnica fazer parte do treino, formando a base do corpo de uma arte, cabe-nos indagar, talvez de maneira ousada: seria ela (a técnica) o fim último da realização de uma prática em que se consomem anos de atividade dentro de uma arte marcial? Ou seria apenas um meio para se chegar a um outro fim, talvez imperceptível no início ou mais à frente?

 

Na história das artes marciais japonesas é provável que tenha havido um período em que predominava a rigidez dentro dessas artes, haja vista o surgimento do Jujutsu em determinada época, tendo como princípio o uso da flexibilidade para controlar a rigidez, bem como o uso da força do oponente a favor de quem se aplica uma técnica, sendo este último o princípio básico do Jujutsu, nas suas mais variadas escolas, ao longo dos séculos.

 

Mas, ainda assim, durante a era do Jujutsu, a técnica era o foco principal dos seus praticantes, ainda que houvesse um ensinamento de cunho filosófico e ético, este não constituía o centro da arte. Haja vista a situação em que se encontrava o próprio Jujutsu na segunda metade do século dezenove, quando os seus praticantes exibiam-se em teatros contra lutadores de outras artes marciais, para o entretenimento da platéia, como também para auferir renda, assim como havia desavenças constantes entre praticantes de diferentes academias nas ruas de Tóquio, e, em alguns casos, os cidadãos comuns sofriam intimidação por parte de alguns Jujutsukas (praticante de Jujutsu).

 

Com a transição para o caminho (), o foco da prática, não obstante continuar-se na realização de treinos ao longo do tempo, com a concessão de graus mais elevados, à medida da passagem do tempo dentro de uma prática, passou-se a buscar a formação ética de seu praticante, procurando incutir-lhe hábitos salutares, passando a aprender, no âmbito do Dojô, normas de condutas e princípios filosóficos, através de orientações dadas pelos mestres das artes, e que, modificando-lhe os hábitos, paulatinamente, esses novos hábitos extravasariam para além dos limites da academia, contribuindo para a formação de um ser que coopere mais na sociedade em que vive.

 

Dessa forma, a técnica e sua realização contínua no tempo, deixariam de ser o fim último do praticante, passando a ser um meio para alcançar-se uma conquista que transbordaria para além dos limites físicos do Dojô.

 

Isso talvez ressalte a importância dessa transição que aconteceu no âmbito das artes marciais japonesas, a partir do início da Era Meiji (1868), pois, da mesma forma, que se pode incutir bons hábitos no praticante, a prática deformada de uma arte marcial, transfere para a sociedade um praticante de hábitos deformados, que, em lugar de trazer benefícios, causa danos aos outros, a si mesmo, e à sociedade como um todo.

 

Essa última hipótese decorre, em última análise, pela preocupação excessiva pela técnica em si, apenas, desconsiderando-se os aspectos do caminho, desprezando-os o praticante ou quem lhe transmite os ensinamentos técnicos de um combate. Daí porque, ainda quando se afirma como praticante de uma arte marcial cujo foco esteja no caminho (), sem caminhar nessa direção, não importa a graduação que ostente, aluno ou professor, essa pessoa, ainda estará na fase da técnica (Jutsu), quando não se apercebe desses aspectos.

 

Colaboração: Marcos José do Nascimento – 1° Kyu (Faixa-Marrom) de Aikidô da Academia Central de Aikidô de Natal

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One Response to A Técnica e o Caminho – Uma Reflexão – Por Marcos José do Nascimento

  1. Ribamar Lopes disse:

    Excelente dissertação. Comungo dessa visão, e à vezes me surpreendo quando encontro entre os que praticam Aikido a ausência dessa compreensão. É uma uma das artes onde a filosofia do DO é mais evidente, e sendo assim, quem a procura deveria desde já perceber que há um apelo diferente das artes marciais deformadas em jogos olímpicos. Mas o Aikido também tende a transformar aqueles, que se entraram com visão equivocadas, persistindo, passam a perceber o seu real benefício. Parabéns pela reflexão. Domo Arigato Gozamaishita.

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