REFLEXÃO SOBRE A ESSÊNCIA do AI do KI e do DO – Por Pablo Ricardo Medeiros

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Certa vez o Ô-Sensei disse: “Eu não criei o Aikidô. Aiki é o caminho de Kami. É fazer parte das leis do universo. É a fonte dos princípios da vida. A história do Aikidô começa com a origem do universo.” A leitura do livro de Mitsugi Saotome reúne a meu ver, o que mais se aproxima da essência do Aikido.

Todos, buscamos ou imaginamos o caminho que nos leva ao Criador. Todas as religiões visam a religação com o Deus que apregoamos. Todas elas trazem conceitos de paz na terra, mas cada um com o seu próprio entendimento abstrato. Deus é um só, mas aos olhos das suas criaturas, tem muitas faces.

O Aikido é um dos caminhos que também visa buscar essa reconexão com a energia criadora a que nominamos de Deus. O arquiteto desta arte a que hoje conhecemos por Aikidô era um japonês que foi esculpido pela sua cultura e profundamente influenciado pelas tradições da religião xintoísta e budista. A arte era a Katana (espada) e o seu caminho o Budô.

Na leitura do livro de Saotome, me sinto, pois, preenchido com um conteúdo complexo e denso, que ao meu ver, dá sentido a esta arte que praticamos dentro do tatame no dia a dia. Resumiria assim o Aikido, se pudesse, na caminhada que leva à adaptação (musubi – através dos movimentos) indo de encontro ao equilíbrio e harmonia (satori). Por vezes e equivocadamente o aikidô é entendido como sendo apenas uma arte marcial de defesa pessoal. A prática nos leva a muito mais que isso. Ela nos mostra o quão profundo e diverso são os caminhos que podemos traçar para atingir os nossos objetivos. O refinamento ou não desta arte dependerá do que nós temos para trabalhar em nossos interiores.

Um trecho da obra de Saotome traduz bem esse conceito: “Muitas pessoas escalam o Monte Fuji a cada ano, mas nem todas vão pelo mesmo caminho. O Fuiyama tem diversos lados e cada pessoa sobe por uma razão diferente, com diferentes habilidades. Não se discute qual caminho é o certo, porque o cume é o cume e todos os caminhos levam à mesma verdade última. Quem haverá de negar que o espírito de Deus falou pelos lábios de Jesus? Quem poderá dizer que os ensinamentos do Buda não eram os ensinamentos de Deus? E não é a Deus que Maomé dirigia suas preces fervorosas? Todos os grandes mestres espirituais mostraram o caminho para o alto, para a realidade absoluta que é a Conciência Universal. O caminho não tem importância: o importante é seguir e imitar um grande espírito, um grande mestre, ser sincero e devoto da caminhada.

Quando parte do tratado de Saotome é dito que “A unidade é o poder de Deus que resolve todos os conflitos. O processo de unificação dos opostos é musubi, a junção das duas faces de Deus.“, entendo que as duas figuras (uke e nague) são a personificação na arte materializada do aikidô das forças que se complementam buscando o equilíbrio e o diálogo contínuo com a energia criadora. Se o musubi é movimento que cria e une, esta, é a verdadeira força da alquimia criadora. A mudança é a única constante universal, então a adaptação deveria ser a regra matriz para a convivência com essa lei universal. Não existe harmonia sem o conhecimento prévio do conflito.

O racional enxerga os extremos como protagonistas do conflito. Felicidade e desventura, amor e ódio, moralidade e imoralidade, estes, são elementos que só tem sentido com relação ao observador. Não se conhece a alegria sem vivenciar o sofrimento. No prazer há dor.

Então…, o termo “musubi” traduz a unificação de forças contrárias, de opostos. Àquele, é o movimento que produz energia criadora para fusão dos contrário, do yin e yang. Ele é o elemento da alquimia de Deus. É o ciclo do vir a ser. No musubi chegamos ao “satori“, que é aproximação com o Deus, com a harmonia. Esta é a verdadeira religião, é o que nos conecta e coloca-nos novamente em sintonia com o Criador. É o retorno a casa do pai. Não existe harmonia sem caos prévio, sem conflitos, sem contrários. Nessa experiência vivenciada na própria pele somos levados ao patamar que exala serenidade e paz harmoniosa.

Assim, pensar o aikido e o que ele nos traz, tentando o definir em absoluto, é muito difícil, na medida também que é muito fácil. Treinar e buscar vivenciar intensamente as práticas é dádiva a ser abarcada de coração.

A sinceridade nos movimentos e a constância da prática para toda a vida, naturalmente para aqueles que encontraram no AI, a harmonia, no KI, a energia propulsora da própria existência, e no DO, o caminho não definitivo, mas essencial e confortador para essa curta passagem por esse mundo, é absolutamente iluminador.

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*Pablo Ricardo Medeiros é servidor público estadual e aluno, faixa-roxa, da Academia Central de Aikidô de Natal.

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Colaboração:

http://www.impressione.wordpress.com

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2 Responses to REFLEXÃO SOBRE A ESSÊNCIA do AI do KI e do DO – Por Pablo Ricardo Medeiros

  1. Roberta disse:

    Muito interessante seu texto, Pablo. Ele encontrou ressonância com meus pensamentos! Parabéns! Muito claro e objetivo.

  2. Rayr disse:

    Excelente texto! Cada vez mais diversificadas as publicações do blog Impressione!

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