COOPERAR PARA PROGREDIR – POR JOÃO TINOCO

Há dias, num estágio de Aikido, eu e o parceiro com quem praticava debatíamos-nos com a falta de área livre à nossa volta para terminar uma dada técnica. Reparando que eu esperava por algum espaço para concluir o que já deveria normalmente estar concluído, o meu companheiro mudou artificialmente de posição por forma a que, aí sim, eu tivesse o espaço suficiente para terminar o tal movimento. Terminei-o e, enquanto nos preparávamos para recomeçar o trabalho, brinquei com um dos estereótipos a que o Aikido está frequentemente sujeito: o de que só funciona graças à generosidade de quem se submete à técnica.

— Isto é que é o que se chama cooperação!
— Claro! — respondeu com um sorriso — Cooperar para progredir.

A uma piada na qual fiz referência a um preconceito contra a arte marcial que pratico, o meu parceiro respondeu confirmando-o na formulação mas mudando totalmente o contexto no qual foi empregue.

Não me esqueci da resposta. Por vezes, há coisas que sabemos mas que, verbalizadas de certa forma e por outra pessoa, se nos revelam de outra maneira. Como se alguma coisa nos aparecesse à frente pela primeira vez, embora soubéssemos que já lá estava. O conceito, assim dito, ganhou a força das coisas que, sendo simples na forma, têm o poder de explicar muito.

De facto, cooperar é a maneira mais fácil e, arrisco a dizer, mais lógica de progredir. Como? E o que será cooperar no contexto do Aikido? Tentarei explicar através de um exemplo pela negativa: Imaginemos um jovem que, cheio de vontade de aprender Boxe, chega pela primeira vez a uma aula. Depois de ouvir e ver as explicações de alguns do golpes que terá que executar, encontra à sua frente para praticar o que acabou de aprender, um colega mais avançado. O colega é mais forte, mais alto, tem os braços mais compridos e, claro, já sabe os golpes que o jovem principiante terá que executar pela primeira vez. À primeira tentativa de acertar no gigante que tem à frente, este coloca-lhe a mão na cara, de braço esticado, impedindo que o jovem iniciado conclua qualquer movimento com um mínimo de êxito. O pobre principiante faz tudo para conseguir qualquer coisa parecida com o que o professor mostrou. Põe mais força nos gestos, rapidez nos braços, desequilibra-se e volta a equilibra-se, sempre na tentativa de escapar do travão imposto pelo colega. A aula chega ao fim. O aspirante a boxeur está esgotado mas não conseguiu fazer um único movimento dos que lhe foram propostos. Sai do ginásio frustrado e, muito provavelmente, com a sensação de que afinal não tem queda para o Boxe… Se calhar, nunca mais voltará a tentar.

A história acima, sendo uma caricatura, é bem o retrato daquilo que muitas vezes se passa num tapete de Aikido. Frequentemente, ouvimos praticantes menos experientes queixarem-se de que, aqui ou ali, apanharam pela frente um parceiro avançado que não os deixou executar uma única técnica e muitas vezes sem lhes explicar o que está mal (se é que está…) Chegado o fim do tempo para executar a técnica proposta, o aluno menos avançado não aprendeu nada e, pior, terá ganho medo ou até má vontade em relação ao colega mais graduado.

Voltemos ao Boxe. O que deveria ter feito o colega mais avançado do nosso personagem? Antes de mais, não esconder nunca a sua superioridade técnica, mas mostrá-la de uma forma que levasse o menos experiente a confiar em si e no que lhe ensinava. Depois, mostrar o seu próprio gesto para que servisse de exemplo. Aceitar os golpes do principiante, passando a recusar mais falhas na mesma medida em que este progredisse. Provocar, expondo a parte certa do seu próprio corpo, o golpe correspondente e reagir com peso e medida mas colocando gradualmente mais desafios. A isto ter-se-ia chamado cooperar. Para quê? Para os dois progredirem. O trabalho com um parceiro menos experiente obriga o mais avançado a rever todos os seus conhecimentos, actualizando-os. Obriga à atenção constante e ao trabalho da sensibilidade para com quem está à sua frente e, nessa medida, progridem os dois.

Voltando ao Aikido, como podemos definir o que será uma justa cooperação? Em cada praticante, segundo o seu nível técnico, idade, compleição física, etc. será de esperar um diferente grau de resposta aos estímulos colocados. Como será evidente, uma resposta aceitável em alguém com um ano de prática, não o será muito provavelmente se falarmos de um praticante com dez anos de experiência. A primeira tarefa do mais avançado será esta avaliação. (É subjectiva, é certo, mas é necessária e o bom senso deverá na medida do possível ser usado.) Depois, e baseado na sua percepção, deverá aceitar o erro em maior ou menor grau. Se a deficiência técnica do principiante não é de todo aceitável, o mais experiente terá a obrigação enquanto aikidoka de explicar o movimento. Não necessariamente de forma verbal (pode até, por vezes, não ser correcto fazê-lo) mas com o seu próprio corpo, ajustando-se à técnica por forma a emendar o erro do iniciado, travando o movimento aqui para abrir uma possibilidade ali. O parceiro menos experiente aprenderá assim, através do contacto físico, a trajectória correcta, a descontração ou a coordenação de movimentos, entre outros factores.

Também o prazer que ambos retiram da técnica tem um papel fundamental. Sem o prazer da execução, não há aprendizagem correcta. Aceitar algum grau de erro na técnica do parceiro é facultar-lhe o acesso à satisfação de completar um movimento, sensação essa que será convertida em vontade de praticar mais e, logo, de progredir. Um principiante bem acolhido no tapete, tornar-se-á num praticante acolhedor e que retirará prazer da progressão dos próximos iniciados. Um praticante avançado que não aceita o erro, não indica caminhos para o corrigir, enfim, não coopera, só contribui para frustração de quem tem à sua frente ou, quem sabe, para uma ilusória elevação da sua auto-estima.

*JOÃO TINOCO é 4º Dan Aikikai. Pratica Aikido e Jodo sob a orientação de Vicente Borondo, 5º Dan Aikikai e Menkyokaiden de SMR Jodo da Federação Europeia de Jodo.

Texto escrito em Português de Portugal e publicado originalmente em: https://sayanouchi.wordpress.com/2017/05/09/cooperar-para-progredir/

Colaboração:

http://www.aikidorn.com.br

http://www.impressione.wordpress.com

http://www.sayanouchi.wordpress.com

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