Além de “Sensen no Sen” – Por Stanley Pranin

05/11/2013

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Uma explicação tradicional das estratégias no contexto das artes marciais japonesas frequentemente envolvem uma discussão em três níveis da iniciativa de combate: “go no sen”, “sen” e “sensen no sen”. Estas estratégias são definidas como se segue: “Go no sen”, significa “ataque posterior” envolve um movimento defensivo ou um contra ataque em resposta a um ataque; “sen”, uma iniciativa defensiva lançada simultaneamente ao ataque do oponente; e “sensen no sen”, uma iniciativa iniciada em antecipação a um ataque em que o oponente está inteiramente concentrado em seu ataque, e assim, psicologicamente além do ponto de onde poderia voltar. Esta ultima estratégia é em geral considerada como o nível mais alto do cenário das artes marciais clássicas.

O conceito do Fundador da estratégia do aiki vai muito além da dimensão da confrontação psicofísica. Em uma entrevista de 1957, ele expressa o conceito com estas palavras:

Não é uma questão de ‘sensen no sen’ ou de ‘sen no sen’. Se eu tentasse colocar em palavras eu diria que você controla seu oponente sem tentar controlá-lo. Este é o estado da vitória contínua. Não existe qualquer ideia de vencer ou perder em relação a um oponente. Neste sentido, não existe um oponente no aikido. E mesmo que você tenha um oponente, ele se torna uma parte de você, apenas um parceiro que você controla”.

O conceito chave aqui é que o que normalmente consistiria de uma confrontação física com um possível atacante é transformado em uma harmoniosa interação. O impulso de luta do uke foi suplantado e coberto por amor. Em outras palavras, a meta é viver toda a vida em um plano diferente de consciência, em harmonia com o seu redor e com as pessoas com que se encontra. Olhado por este lado, o aikido se torna uma metáfora para a vida em paz, com a posse de habilidades necessárias para se neutralizar e subjugar um oponente violento.

Este é um pensamento superior que só pode ser atingido com longos anos de treinamento para desenvolver uma sensibilidade maior em relação às pessoas e aos acontecimentos que nos rodeiam. Além disso, isso envolve o desenvolvimento de um grupo de habilidades espontâneas que consistem em respostas físio-psicológicas adaptadas a qualquer tipo imaginável de interação humana. O Fundador descrevia esse estado como “Takemusu Aiki” – o nível mais alto do aikido em que se é capaz de executar espontaneamente técnicas perfeitas em resposta a qualquer circunstância.

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Awase, Kiai e Atemi – Por Stanley Pranin

30/10/2013

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AWASE

O conceito de “unir-se” com seu oponente no aikido é frequentemente usado quando os professores descrevem a mecânica de uma técnica. O que geralmente se quer dizer com isso é que o movimento deve ser coordenado para coincidir com a velocidade e a direção do ataque do uke. Após isso ter sido alcançado, como a ideia prossegue, o nage coloca o uke em uma posição desequilibrada e executa o arremesso.

Na verdade, essa é uma explicação muito superficial do conceito da união como era vista pelo Fundador. A razão é que, neste cenário, é o uke quem controla o tempo e a direção do ataque enquanto o nage “reage” em uma tentativa de se unir ou se igualar aos movimentos do uke. Contra um oponente hábil e capaz de movimentos muito rápidos, simplesmente não há tempo suficiente para responder desta maneira.

Em um nível bem mais alto, o nage toma a iniciativa forçando o uke a reagir à “direção” psíquica indicada pelo nage. O uke não consegue coordenar um ataque significativo contra a pressão psicológica aplicada pelo nage. Exemplos desta estratégia aqui descrita pode ser uma postura natural acompanhada por uma sutil mudança do corpo, metsuke ou contato visual, ou a alteração do ritmo da respiração, para listar algumas poucas possibilidades. Sob tais condições, o uke deve lidar com um campo de energia que se altera e mudar seu ataque para compensar.

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KIAI

O kiai é um “grito de combate” usado para interromper ou neutralizar o ataque de um oponente. O uso desta poderosa técnica de vocalização corresponde à exalação de ar e concentra o corpo e o espírito do nage em um ponto específico. O resultado final de um kiai bem executado é a interrupção do fluxo do ki do uke e a inutilização de seu ataque. Frequentemente o movimento do uke será congelado por um breve instante, dando ao nage uma excelente oportunidade para aplicar uma técnica.

O-Sensei frequentemente usava o kiai como um instrumento para controlar seu uke. Ele o usava com maior frequência ao fazer demonstrações com a espada. Ironicamente, o uso que o Fundador fazia desta técnica era tão eficiente que os ataques de seus uke costumavam parecer fracos, porque eles eram interrompidos por seu kiai bem sincronizado.

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ATEMI

O Fundador podia ser visto aplicando atemi ou “golpes antecipados” até o fim de sua vida. Mas, atualmente, o atemi caiu em desuso no aikido. Acredito que isso se deve à falta de compreensão quanto ao seu propósito. O atemi é uma ação usada para antecipar a intenção agressiva do uke através de uma manobra de distração na forma de um golpe. O uso do atemi não é para o propósito de ferir ou “enfraquecer” o uke antes de se efetuar uma técnica. Seu papel é semelhante ao do kiai, pois ele interrompe a concentração do uke.

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O Ataque no Aikido – Por Frank Düesberg

04/03/2013

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O texto que segue foi enviado pelo aikidoca Frank Düesberg. Frank é aluno da Academia Central de Aikidô de Natal .

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Existe uma tendência muito forte de valorizar a aplicação da técnica.  Entende-se neste sentido como técnica uma sequência de movimentos padronizados.  Para conseguir executar os mesmos, requer-se um esforço, principalmente dos braços, para levar o corpo do uke de acordo com a exigência da técnica. Sendo assim, eu questiono se ainda se trata de Aikido no sentido como eu o compreendo, porque a partir do momento que o nage usa sua força, além do necessário para desviar o ataque, ele mesmo se transforma em agressor e o uke em vítima. O critério vital para discernir um do outro é exatamente a quantidade de força que o nage aplica. Um dos pontos chaves para mim para saber da qualidade de um nage é o uso minimizado de força.

Nessa perspectiva o ataque do uke ganha outra dimensão quase totalmente ignorado devido ao papel dominador da aplicação padronizada dos movimentos. Quais são os erros mais comuns nos ataques? Aqui cabe uma comparação com a vida na nossa sociedade. As pessoas que encontramos no dia-a-dia não vêm com intenções claras, diretas e sem reservas. A falta de honestidade é prática comum, as pessoas não são como querem ser vistos. São cheios de subterfúgios, maliciosos, e em qualquer mudança das circunstâncias imediatamente mudam de atitude de acordo com seus interesses.

No ataque do uke isto significa que ele não é efetuado com 100% de intenção direcionada, o que pode ser observado nos ataques mais comuns pelos seguintes critérios: 

– no quadril recuado e no tronco inclinado para frente;

– no peso do corpo nas duas pernas ou até na perna de trás;

– no braço retesado na hora do arremesso nos golpes;

– na falta de direcionar a intenção para o centro do nage no caso das pegadas;

– na pouca precisão do local pretendido do ataque e

– na reação antecipada sabendo a técnica a ser aplicada.

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Para um bom ataque então, o uke precisa: 

– definir antes do início do ataque o local preciso que quer atingir e manter este objetivo o máximo de tempo possível;

– arremessar o braço nos golpes para conseguir o máximo de potência;

– soltar a musculatura do braço nos golpes após alcançar o local pretendido do ataque;

– manter uma pressão contínua para o centro do corpo do nage nas pegadas;

– colocar o peso do corpo na perna da frente mantendo o quadril e tronco alinhado;

– evitar a antecipação da técnica;

– manter o ataque numa velocidade adequada até o final do movimento;

– após o término do ataque ficar numa posição equilibrada;

– não cair sozinho;

– evitar a antecipação do movimento do nage.

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Aikidô – Técnicas Básicas – Kihon Waza – Por Morihiro Saito Shihan

20/02/2013

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A importância de uma sólida compreensão das técnicas básicas não pode ser deixada de lado. Muitas escolas de Aikidô ensinam principalmente Ki no Nagare, ou seja, técnicas com fluidez de Ki. Neste tipo de treinamento, as técnicas são executadas a partir de um movimento inicial dispensando totalmente a prática básica onde você permite ser agarrado firmemente. Este tipo de prática pré-arranjada é bem sucedida somente quando ambos os parceiros cooperam completamente. Problemas ocorrem, no entanto, quando estudantes acostumados somente com este tipo de treinamento são confrontados com um oponente forte e não cooperativo. Treinando-se somente Ki no Nagare fica-se totalmente despreparado para a força e ferocidade de um ataque real. Os ataques fracos e não diretos realizados neste tipo de treinamento são comuns no moderno Aikidô, no entanto este modo de treinamento é totalmente contrário aos princípios marciais ensinados pelo fundador.

Aqueles que praticam as técnicas básicas, opostamente àqueles que treinam exclusivamente as técnicas em Ki no Nagare, aprendem como lidar progressivamente com ataques fortes. A fim de realizar isto, você deve estar certo de que quando estiver agarrando seu parceiro de treinamento, esteja fazendo-o firmemente e com uma real intenção. Se seu parceiro é incapaz de mover-se, então diminua a força de seu ataque até que ele ou ela seja capaz de executar uma técnica apropriada. Sempre regule a intensidade de seu ataque ao nível de seu parceiro.

No treinamento básico, todas as técnicas começam a partir de um Hanmi, ou postura preparatória. O Hanmi no Aikidô é uma postura triangular com o pé da frente voltado para frente e o pé de trás perpendicular ao frontal e voltado para o lado. A capacidade de mudar de posição rapidamente mantendo-se estável e girando os quadris completamente, depende de um apropriado Hanmi. As duas posições mais comuns são: Gyaku Hanmi (posição invertida) e Ai Hanmi (posição igual). Em Gyaku Hanmi você e seu parceiro têm os pés opostos à frente, enquanto que em Ai Hanmi ambos têm o mesmo pé a frente. Esta distinção é muito importante e, na maioria das vezes, o sucesso na execução das técnicas do Aikidô dependerá de iniciá-las no Hanmi apropriado.

Uma deficiência comum no treinamento de hoje é a falta da prática dos Atemi, ou ataques em pontos vitais. Os Atemi são usados para enfraquecer ou neutralizar um ataque do oponente para criar-se assim uma situação favorável na qual se pode executar uma técnica. Em muitas situações é virtualmente impossível desequilibrar um oponente forte, suficientemente para aplicar uma técnica sem recorrer-se ao Atemi. Aqueles que afirmam que o uso de tais ataques (executados com o intuito de tirar atenção do oponente do objetivo principal da técnica) é muito violento ou “não é Aikidô” ignoram os conceitos do Aikidô ensinados pelo fundador que dava grande ênfase sobre a necessidade de tais movimentos durante o treinamento. Os Atemi são uma parte essencial das técnicas básicas e também avançadas, e não devem ser omitidos de sua prática.

O fundador sempre iniciava as sessões práticas com os exercícios de Tai no Henko e Morote Tori Kokyo Ho. Ele terminava cada prática com o treinamento de Suwari Waza Kokyu Ho. Os exercícios de Tai no Henko constituem a base dos movimentos Ura, ou movimentos girando, e os dois Kokyu Ho, ou métodos de respirar, ensinam como respirar corretamente, a coordenação apropriada do corpo e como estender o Ki intensamente.

No treinamento do Aikidô nós abrimos nossos dedos para estender o Ki através dos braços. Abrir os dedos é uma forma de aprender as técnicas básicas, um treinamento que permitirá a você executá-las sem usar qualquer força. Abrindo os dedos quando seu pulso é subitamente agarrado torna-o mais grosso, e dá a você uma vantagem. Para aqueles aprendendo defesa pessoal é dito para abrirem seus dedos quando agarrados porque o braço torna-se difícil de segurar.

O Ki é algo adquirido naturalmente através da correta prática dos fundamentos básicos. Se você se preocupar de mais com o Ki, você será incapaz de mover-se. O Ki se manifestará por si mesmo naturalmente se você estiver treinando corretamente. Uma vez que você tenha desenvolvido o Ki, este fluirá livremente através de suas mãos mesmo quando seus dedos estiverem relaxados.

O fundador considerava as técnicas de Ikkyo até Sankyo como sendo movimentos preparatórios ao Aikidô. No Ikkyo você treina seu corpo; no Nikyo você “dobra” seu pulso para dentro estimulando e fortalecendo as juntas; no Sankyo você move seu pulso para fora na direção oposta. Através da prática destas técnicas, você desenvolve um corpo capaz de derrotar um inimigo com um único golpe. Estas técnicas básicas são sua preparação, e o treinamento nas técnicas do Aikidô começa através delas.

Outra parte essencial do treinamento dos fundamentos do Aikidô é o domínio da entrada e dos movimentos de giro. Se você decide avançar, você deve avançar totalmente. Se você decide girar para trás deve fazê-lo completamente. É difícil avançar depois de desviar um golpe, a menos que você possua uma vantagem em força. Portanto, gire sempre que necessário, como quando estiver em uma situação onde você seja incapaz de bloquear. A prática de técnicas girando é também necessária para se aprender como mover-se livremente.

Recentemente, o Termo “Takemussu Aiki” tem sido usado bastante livremente, porém parece que poucas pessoas compreendem seu significado. Takemussu Aiki refere-se a um estado onde técnicas nascem infinitamente como resultado do estudo dos princípios do Aikidô.

No treinamento do Aikidô – que inclui técnicas de mãos vazias, Aiki Ken e – é importante fazer claras distinções. Estas incluem as distinções entre Ikkyo e Nikyo, Omote e Ura, técnicas básicas e Ki no Nagare, e técnicas aplicadas (Oyowaza). Em uma recente viagem à Itália, experimentei executar tantas técnicas quanto podia. Concentrando-me apenas sobre as técnicas básicas, Ki no Nagare, variações e técnicas aplicadas, acabei por realizar mais de 4 centenas de técnicas, e estou certo de que o número teria subido para mais de 6 centenas caso tivesse incluído técnicas partindo da posição sentada, Hanmi Handachi (Atacante em pé, defensor sentado), e técnicas de contra-ataque.

Não importa quão esplendidamente as pessoas escrevam sobre Takemussu Aikidô, eles devem ser capazes de executar estas maravilhosas técnicas por si mesmas, se eles estão sendo considerados como professores. Se vocês continuarem a praticar assiduamente de acordo com o método tradicional, alcançarão o estágio onde serão capazes de executar um número infinito de técnicas desde as básicas até as mais avançadas.

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Tradução: Sensei Rubens Caruso Jr.

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Prática Honesta por Jim Zimmerdahl

18/02/2012

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O texto que segue é tradução feita pelo Blog Shoshin Sakuba (Aikidô de Curitiba) de um ensaio de Jim Zimmerdahl, Honest Practice, publicado originalmente em inglês no site AikiWeb.com.

Boa leitura.

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Prática Honesta por Jim Zimmerdahl

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Um ladrão

Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

À minha esquerda tem uma faixa-branca, um novo aluno faixa-verde tem praticado conosco há alguns meses. O faixa-branca está tendo problemas com a técnica. O faixa-verde começa a ajudar, dizendo a o faixa-branca como corrigir o problema. Soa familiar? Em pouco tempo o faixa-branca passa a ter uma sessão de treinamento particular – muita conversa com pouca ação. O instrutor auto-declarado é um ladrão! O faixa-verde tem a melhor das intenções, mas arrancou o aluno do treino, do professor do aluno, e o tempo da prática. Além disso, faixa-verde raramente ensina. Eles têm muito a aprender e até mesmo com as melhores intenções, pouco a ensinar.

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Um impostor

Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

O instrutor explica um conceito e um estudante à minha esquerda faz uma pergunta. Ele começa a frase com: “Então você quer dizer que …” com uma reformulação do que o instrutor já disse. Dá para notar que a questão não é uma pergunta honesta porque carrega uma expressão de dúvida. O aluno não quer saber a resposta. O estudante queria o reconhecimento pela compreensão, pela participação. Este estudante está fingindo estar interessado no que o professor tem a dizer, mas realmente quer ser percebido como alguém com conhecimento. O ego está no comando.

Outro aluno faz uma pergunta. O instrutor responde à pergunta, mas dá para ver que o aluno não está satisfeito com a resposta. O estudante reitera o que um instrutor anterior declarou. Este aluno quer que o instrutor (e os outros alunos) saibam que existem outras opiniões sobre como isso deve ser feito. Este estudante está fingindo contribuir com informações adicionais, mas na realidade, ele tem dúvidas sobre o instrutor. O ego está no comando.

Começamos a prática. Foi passada uma série específica de movimentos e todo mundo faz apenas o que foi pedido. Depois de um tempo uma dupla de estudantes começa a mudar o que estão fazendo. Outro par está parando para discutir cada sucesso e fracasso, e todo mundo acha que eles são muito ativos e participativos. Bem, sim, eles são. Mas cada um tem sua própria “agenda”. Eles estão se colocando como estudantes interessados, mas, na verdade, estão interessados em gratificação pessoal e imediata. Eles não estão praticando, pois eles estão se exibindo. O ego está no comando.

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Uma vítima

Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

Um estudante à minha esquerda queixa-se de um problema com a técnica. O instrutor sugere uma solução e pede aos alunos para tentar novamente. O estudante tenta, exagerando o problema ao mostrar o quanto é difícil. O instrutor sugere outra solução. O aluno quer que a técnica perfeita apareça como um passe de mágica, sem esforço. Uke enfraquece o ataque para dar uma melhor chance ao Nage. Nage é mais capaz agora, e bem sucedido contra um ataque menos eficaz. Nage se sente melhor, enquanto a técnica sofre. Nage e Uke trocam suas posições. O praticamente que havia sido Nage ataca de modo que a técnica aplicada exige uma queda truncada. Quando o aluno reclama do excesso de força, Nage reduz o foco do ataque para poupar Uke. Uke finge a queda. A técnica sofre, o risco é removido, e a realidade desapareceu. O aluno pode ficar bem na fita (para alguns) sem se sentir ameaçado e sem incomodar ninguém. O aluno é uma vítima – uma vítima do desejo de obter algo sem dar nada em troca.

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Um charlatão

Estou praticando com outro estudante. Alguém está conduzindo o treino, tentando fornecer as informações e práticas necessárias para, eventualmente, “possuir” a técnica do momento.

Quando a prática se torna mais difícil, fica trabalhosa demais para um estudante à minha direita. O aluno precisa de um copo de água. O parceiro desse aluno tem que esperar até a sua volta, e eles começam a praticar novamente. O aluno assume o papel de Nage. O parceiro é um bom Uke, atacando de forma sincera, mas o Nage não se voluntariar para ser Uke. O professor seleciona outra técnica e uma mudança de parceiros. O aluno assume novamente o papel de Nage. Depois de um tempo o professor grita: “Troquem as duplas” e o tal aluno precisa de outro copo de água. Lembro-me deste ser o aluno que sempre chega logo após o fim da faxina do dojô, na manhã de sábado. Este é também o estudante que teve que sair um pouco antes do projeto que estava planejado desde a semana passada. Mas esse aluno é um político de alto nível – um estudante maravilhoso de ter por perto, a menos que você exija alguém que esteja disposto a “andar o caminho (walk the walk)”.

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Então, quem é esse aluno?

Provavelmente todos nós. O ladrão, o impostor, a vítima e o charlatão são a besta interior, o ego. Aquele pedaço de nós que está sempre em busca de gratificação, afago, moleza e reconhecimento.

Nós somos todos ladrões. Todos nós queremos o reconhecimento, por isso roubamos um pouco do tempo de todos para obtê-lo, mesmo que seja de alguém que ainda não sabe o que está acontecendo. E todos nós temos nossos joguinhos mentais quando somos o impostor.

Nossa mente é uma coisa maravilhosamente inteligente e enganadora. Ela chega a nos fazer pensar que estamos sendo honestos. Mas raramente é uma mente aberta. Nosso copo raramente está vazio. Nossos egos nos impedem de nos submetermos à vontade dos outros. Isso ajudou a sobrevivência da espécie, mas é um desastre no processo de aprendizagem.

Muitas vezes encarnamos o papel de vítima. A mente está sempre procurando o caminho mais fácil. Se acreditarmos no que sentimos, a mente vai nos fazer sentir que o caminho de menor desconforto e maior gratificação é a única opção. Mentimos para nós mesmos para justificar a mentira que compartilhamos com os outros. O charlatão é um ladrão muito hábil, que também é um impostor e se justifica pondo a culpa no mundo ou nos outros.

É terminal? Não mais do que a vida. Mas devemos estar preparados, porque todos nós somos alunos. Nenhum de nós está imune a nossa própria mente. Devemos sempre verificar os nossos motivos – verificar nossa verdadeira motivação quando agimos (ou reagimos), porque estas são apenas algumas das formas que a besta interior da “justificativa” vai assumir. Na verdade, enquanto você lê isto, você vai se lembrar de ter visto alguns desses alunos sobre o tatame. Mas você se lembra de vê-los no espelho? Não se sua besta interior está no comando.

Mas o Aikidô não é justamente a respeito disso? Nossa prática nos dá uma oportunidade de expor a fera, onde podemos identificá-la, desnudá-la, e esmagá-la até a morte. Então podemos calar a boca e praticar. Claro que ela vai estar de volta em outra forma, mas e daí? Esta é uma busca ao longo da vida inteira.

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Entenda: Tai Sabaki, De-ai e Ma-ai

09/07/2011

 

Tai Sabaki (体捌き) é um CONJUNTO DE TÉCNICAS DE MOVIMENTAÇÃO DO CORPO, ou um método de se posicionar diante de uma situação de enfrentamento. Pode ser traduzido como a gestão do corpo. É praticado por várias artes marciais japonesa e sua finalidade mor é justamente evitar o enfrentamento direto, evitando, pois, um ataque e, na sequência, deixar a pessoa numa posição vantajosa. Sendo parte de um conjunto, não se deve resumir tai sakabi apenas como esquivas.

O termo em japonês tai, dentre outros significados, quer dizer «corpo» ou «realidade». O termo sabaki, «manipulação». Tai sabaki seria, pois, a manipulação do corpo como um todo, mas sem deixar de lado o ambiente da realidade que cerca a cena de combate. Pretende-se assim que a um só tempo sejam executados defesa e ataque.

Neste tipo de deslocamento são usados fundamentalmente movimentos circulares em resposta ao impulso de um atacante, de modo que quem defende, saindo para uma das laterais, possa ficar em uma situação de vantagem em relação ao atacante.

A despeito de se falar em deslocamento, tai sabaki implica deixar o lutador em tal postura que a área de seu corpo que poderá ser atingida pelo adversário seja reduzida ao máximo, ou, eventualmente, criar uma área em que possa dissimular seus ataques – Shikaku (Ponto Cego).

Na execução da técnica deve-se mudar o corpo sem perder o equilíbrio nem a estabilidade, não levantando ou baixando a cabeça (altura do corpo). Da mesma forma, os giros e demais movimentos devem ser realizados em torno de um eixo ideal, que perpassa pelo corpo de cima a baixo, e tendo sempre o fim de retornar a uma postura mais estável, preferencialmente igual a que se executava antes do início do deslocamento – Exemplos disto é o tenkan e o tenkai ashi, no Aikidô.

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De-ai (出合い) é o TEMPO envolvido no controle do espaço destinado à criar a reação. É o encontro do positivo com o negativo, o momento da troca. De-ai é o momento da verdade.

O treino do De-ai é fundamental no Aikidô. Só percebendo o tempo correto e a geometria espacial da relação ente o atacante e o defensor, é que se poderá executar a técnica. O estudo do tempo é o resultado paradoxal de uma intensa concentração e de uma postura e percepção relaxada.

A concentração num pequeno ponto, como a mão ou a espada, estreita as visões espirituais e físicas, fazendo com que os olhos se imobilizem, que o pescoço, os ombros e as pernas se tornem rígidos, provocando uma perda de elasticidade bloqueadora da reação imediata e espontânea. O momento de reação perde-se e a reação só se inicia muito depois do movimento do adversário. O momento adequado não é o resultado da rapidez, mas o resultado de esperar com paciência uma vantagem.

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Ma-ai (間合い) significa o ESPAÇO que há entre os contendores, isto é, o distanciamento existente entre uma pessoa e outra, conjugado ao esforço necessário para se alcançar o outro com uma técnica e assim reciprocamente, levando-se em conta ainda, além das idiossincrasias de ambos, suas modalidades e posturas durante o embate.

Como o escopo é evitar um ataque, saindo-se numa posição mais vantajosa, seja simplesmente deixando o opoente passar para conseguir acesso à sua retaguarda, ou o início de uma interceptação, isto não é possível se o budoca estiver mal posicionado em relação s seu oponente. Posto que este último desfira uma ataque inútil ou erre a manobra, de nada adianta se a posição final restar muito longe. Neste caso, a virtual vantagem será somente o desperdício de energia que o adversário cometeu. Na verdade, a boa ambientação visa controlar o fluxo de energia entre os lutadores.

Colaboração: www.acpaikido.com e www.pt.wikipedia.org


Shomenuchi Ikkyo – Contrário aos princípios do Aikidô? – Por Stanley Pranin

02/07/2009

Shomenuchi ikkyo é provavelmente a técnica mais praticada do Aikidô. Muitos instrutores vêem essa técnica como o pilar do Aikidô básico e frequentemente começam a prática em suas aulas com shomenuchi ikkyo omote. Além disso, é dito que o fundador ensinou muito essa técnica tanto antes como depois da guerra.

Como essa técnica é tipicamente praticada hoje em dia nos dojô(s) de Aikidô? O ukê inicia o ataque com um golpe shomenuchi contra o tori. O tori recebe o golpe, empurra o braço do atacante para trás ou para o lado enquanto dá um passo com o pé de trás para desequilibrar o atacante, e finalmente aplica o ikkyo. Esta é, claro, uma maneira muito simplificada de descrever o que é de fato um complexo processo físico, mas qualquer aikidoka reconhecerá o padrão de movimento que descrevi.

Eu tenho praticado esta técnica por anos, como está descrita acima, em aulas com diversos professores. Eu sempre considerei shomenuchi ikkyo omote difícil de ser executado com perfeição porque a coordenação do momento de se encontrar com o ataque shomenuchi é o ponto crítico. Se o praticante estiver um segundo atrasado ao responder o golpe de ataque, a técnica pode se tornar um choque de forças opostas que termina com uma batalha para se determinar quem tem o movimento de quadril mais estável ou maior força nos braços e ombros. Ela contrasta com outras técnicas básicas do Aikidô como yokomenuchi shihonage, munetsuki kotegaeshi, e várias outras, em que o objetivo é se retirar da linha de ataque, se unir à energia que se aproxima, e então aplicar uma técnica apropriada e depois uma imobilização. Nestas a força não é o mais importante porque a técnica não envolve confrontação direta. Estas técnicas são claramente do “tipo aiki” em suas manifestações físicas. 

Por muito tempo eu atribuí minha dificuldade em executar o shomenuchi ikkyo à minha inabilidade de compreender o conceito fundamental ou à minha técnica ainda fraca. Então, em 1973, 11 anos após começar no Aikidô, eu entrei em contato com um método diferente de prática. Passei um mês em Shingu, na prefeitura de Wakayama, treinando com Michio Hikitsuchi Sensei. A forma que o Sensei Hikitsuchi adotava se dava com o tori realmente iniciando a técnica, executando um atemi contra a cabeça do ukê. O ukê, apesar de ser quem seria arremessado, era forçado a proteger sua cabeça bloqueando o atemi, e então, estando desequilibrado, ele seria facilmente arremessado. Praticar dessa maneira era novidade para mim, e não gostei disso. O ritmo do treino era muito rápido, e, no papel de ukê, assim que me levantava de uma queda, a mão do meu parceiro já estava novamente no meu rosto. Eu pensei “como isso pode ser Aikidô, se eu, o atacante, estou sendo atacado”?

Alguns anos depois, em 1977, eu me mudei de vez para o Japão, e treinei no Dojô de Iwama com Morihiro Saito Sensei. Lá o shomenuchi ikkyo era praticado de maneira semelhante. O tori iniciava a técnica com um atemi, o ukê bloqueava e era então arremessado e imobilizado. Saito Sensei declarou que era assim que a técnica era ensinada pelo fundador Morihei Ueshiba nos anos que se seguiram a segunda Guerra Mundial. Finalmente eu me acostumei a praticar o shomenuchi ikkyo desta forma e não mais tive dificuldade em executar a técnica.

Mais tarde, em 1981, enquanto entrevistava um dos ushideshi de Morihei Ueshiba Sensei de antes da guerra, eu vi pela primeira vez o manual técnico Budô ao qual sempre nos referimos nas páginas do Aiki News. O Fundador descreve a execução correta do shomenuchi ikkyo com as seguintes palavras: “1) avance com a perna direita e ataque o rosto do parceiro com a mão direita. Seu parceiro bloqueia com a mão direita. 2) Segure o pulso direito do parceiro com sua mão direita e seu cotovelo firmemente com sua mão esquerda. 3) Movendo o quadril, traga o braço do parceiro de forma espiral para baixo na sua frente, então dê um passo largo com sua perna esquerda. 4) Puxe a sua perna direita em frente. 5) Pressione seu joelho esquerdo contra a área da axila direita do parceiro e com a mão direta segurando seu pulso, estenda o braço do ukê e faça a imobilização.” (AN#48, pp. 8-9).

É claro que o fundador praticava esta importante técnica básica em 1938 quando Budô foi publicado. Alguns dizem que as técnicas publicadas neste manual representam o aiki budô de antes da guerra, e que as técnicas do fundador mudaram após a guerra. Eles estão certos, mas só até certo ponto. Existem claras evidências de que Ô-Sensei ensinava muitas técnicas básicas de Aikidô de uma maneira muito semelhante ao seu estilo anterior à guerra mesmo depois, durante o período de Iwama e ao menos até meados de 1950. Nos filmes do fundador durante seus últimos anos, ele executa o shomenuchi ikkyo omote sem mover muito os pés, mas ele nunca espera muito pelo atacante para desferir um poderoso ataque sobre a cabeça. Ele está sempre à frente do ataque e nunca se choca com o ukê. Eu atribuo a falta de um claro trabalho de pés e de taisabaki neste ultimo estágio de sua vida à sua idade avançada e dificuldade de se mover livremente como antes.

Pessoalmente, eu considero as explicações do fundador sobre as técnicas básicas contidas nas páginas do Budô e como ensinadas no período de Iwama como sendo a “gramática” do Aikidô. O Aikidô pode agora ser raramente ensinado desta forma, mas nossa compreensão histórica da arte avançou a um ponto em que a técnica e a metodologia pedagógica de Morihei Ueshiba estão bem documentadas. E fica evidente que estes métodos ainda são considerados importantes, visto a recente autorização do Doshu Kisshomaru Ueshiba para a publicação de uma tradução para o inglês do Budô, pela prestigiosa editora Kodansha. Além disso, espera-se para breve uma reedição do livro em japonês.

O Aikidô, devido às suas características próprias como uma arte marcial ética, parece destinado a atrair muitas pessoas pelo mundo. Como tal, seu conteúdo técnico passará por uma análise detalhada e a arte será comparada às outras artes marciais. Se técnicas feitas como se fossem uma dança e praticadas de maneira descuidada, que contrariam as bases marciais fundamentais do Aikidô de Morihei Ueshiba, forem usadas como exemplo para tais comparações, temo que o Aikidô será considerado despido de um sentido técnico. Praticantes avançados de Aikidô, e particularmente quem tem um dojô sob sua responsabilidade, tem o dever para com eles mesmos e para com a arte de reavaliar o conteúdo de seu treinamento constantemente. Os ataques durante a prática são sinceros e fortes? O equilíbrio do atacante é quebrado antes que se aplique pressão ou antes da execução de uma queda? A queda é bem executada e seguida de um movimento de imobilização eficiente que impede qualquer fuga? Essas coisas devem sempre ser lembradas. E, finalmente, apesar de não podermos aprender diretamente do fundador, seu legado permanece para todos os que buscam explorar a genialidade de suas teorias e técnicas.

Tradução: Jaqueline Sá Freire – Hikari Dojo – RJ

Colaboração: www.aikidojournal.com


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