Uma visão do Aikido – Por Mitsugi Saotome Shihan

08/09/2016

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O Aikido não é uma religião, mas um processo de educação e refinamento do espírito. Você não será convidado a aderir a nenhuma doutrina religiosa, somente a manter-se espiritualmente aberto. Quando nos curvamos em reverência isto não é um gestual religioso, mas um sinal de respeito pelo mesmo espírito da inteligência criativa universal que está dentro de todos nós.

A cerimônia de abertura e encerramento de cada treino de Aikido é uma reverência formal em direção ao shomen, seguindo-se duas palmas e novamente outra reverência ao shomen e então uma reverência entre o instrutor e os alunos. As reverências em direção ao shomen simbolizam o respeito pelo espírito e pelos princípios do Aikido e gratidão ao Fundador pelo desenvolvimento deste sistema de prática e estudo. As duas palmas simbolizam unidade, musubi. A primeira palma envia nossa vibração ao mundo espiritual. A segunda recebe o eco dessa vibração e conecta seu espírito com o espírito do Fundador e com a Consciência Universal. A vibração que você emite e o eco que você recebe são ditados pelas suas próprias crenças espirituais e atitudes.

Não há modo certo ou errado no Aikido. Se um movimento obedece às leis físicas do universo, está correto. Se você obedece às leis físicas do universo, sua atitude deve estar correta. Em seguir estas leis você está seguindo o caminho (a vontade) de Deus. Portanto, Aikido não é um treinamento técnico. É um treinamento de sabedoria.

Não há kata individual no Aikido porque Aiki é a harmonia das relações. Numa área de treinamento de Aikido você encontrará pessoas de diferentes níveis sociais, diferentes culturas e linguagens, diferentes filosofias políticas e religiosas. Elas não estão juntas para competir ou para pressionar suas próprias ideias sobre quem quer que seja, mas para aprender a ouvir um ao outro, a comunicar-se através do contato do Aikido. No tatami onde treinamos nós não podemos esconder nossa verdadeira identidade. Mostramos nossas fraquezas tão bem quanto nossas forças. Suamos juntos, nos cansamos juntos, ajudamos um ao outro e aprendemos a confiar. Todos estão estudando os mesmos princípios universais e a essência, que é a mesma em cada um, torna-se brilhantemente clara assim como cai a máscara de insegurança e o ego. Somos todos indivíduos mas também somos todos parte de cada um. Se você estivesse sozinho no universo sem ninguém para conversar, ninguém com quem compartilhar a beleza das estrelas, para rir juntos, para tocar, qual seria seu propósito de vida? É outra vida, é amor, que dá significado a sua vida. Isto é harmonia. Devemos descobrir a alegria de cada um, a alegria dos desafios, a alegria do crescimento.

No treinamento do Aikido você não vence. Em tentar vencer você perde. Se você vê o treinamento como competição, você perde, seu parceiro de treino perde, todos perdem. Se você encara a vida como competição, você não pode vencer, pois consequentemente você morrerá. Mas se você vê a vida como um processo de criatividade universal, você nunca morrerá, pois você faz parte deste processo. Se você encarar o crescimento do seu corpo e sua mente como um prelúdio para um crescimento espiritual, sua força durará para sempre.

Uma mente voltada para desafios não é uma mente voltada para competição. O maior desafio é desafiar-se a si próprio. Você não deve passar sua vida inteira buscando por segurança. Se você cobrir-se de camadas e camadas de pesadas armaduras, você ficará incapaz de mover-se, incapaz de lutar e de proteger a si e aos outros. Você nunca sentirá o toque quente do sol nem a força de uma tempestade sobre sua pele. A alegria se perderá. Sua liberdade e independência se perderão.

Se você passa a vida na segurança de uma caverna ao pé da montanha, você verá somente escuridão. Sua experiência será limitada e você nunca sentirá a doce dor do crescimento. Você deve deixar esta proteção e segurança e desafiar a si mesmo nas montanhas acima de você. Você deve escalar cada vez mais alto, elevando sua visão, sua habilidade e experimentar expandir-se a cada topo. E estando aberto e desprotegido do vento, com o sol e a neve tocando seu coração, você experimentará o grande panorama do universo inteiro a seu redor. Você alcançará e tocará galáxias e quem sabe, tocará a face de Deus.

Bushido é desafio e sacrifício. É o poder e a força de um espírito independente. Um espírito dependente é fraco e não consegue sacrificar seu próprio egoísmo e sua ganância. Para ser verdadeiramente independente e provar o desafio da liberdade, o espírito deve estar vazio. Numa análise final, você, e somente você, é o responsável pelo seu próprio crescimento. Você cria a sua própria realidade.

Você sente dor, você sente medo, mas está intensamente vivo. Escalando uma montanha de gelo, com frio, faminto, exausto, você está só com o som do vento. Desista e você morre. Talvez um passo, talvez uma polegada por dia, mas tente. A vida é a mesma coisa. Às vezes com frio, com fome, e sozinho. Você deve depender exclusivamente de você. Isto é Bushido.

Este é o meu mundo do Aikido. A busca pelo topo das montanhas.

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Extraído do livro Aikido e a Harmonia da Natureza de Mitsugi Saotome

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MISOGI – Por Hiroshi Ikeda

25/09/2013

Hoje eu e minha esposa saímos cedo do trabalho e fomos para a escola de nosso filho antes do final da aula. Era nossa semana de fazer a limpeza da sala de aula da 4ª e 5ª série. Nesta escola cada família participa pelo menos uma vez no ano da limpeza da sala de aula de seus filhos, fazendo a limpeza (o que é muito encorajado), ou pagando $40 para que a escola contrate alguém para fazer isso (o único zelador da escola). A maioria das famílias escolhe ir fazer a limpeza.

Nós temos feito isso desde o jardim de infância, e se tornou um ritual do qual gostamos muito. Acho que estar no meio da ação nos faz sentir que fazemos parte da escola, isso nos dá um sentimento de conexão com o lugar em que nosso filho passa várias horas de seu dia. Nós fazemos isso por ele, pelo professor, por seus colegas, fazendo uma pequena contribuição para manter o mundo deles limpo, em ordem e agradável. De uma maneira simbólica, estamos recompensando seu professor, a quem ele adora (e nós também) por ter uma influência tão positiva em sua vida.

Então dizemos “olá” para os outros pais e vamos ao armário do zelador, pegamos um aspirador de pó e uns sacos de limpeza e vamos para a sala de aula de Jill. É claro que nosso filho preferiria passar o tempo no laboratório de computação enquanto nós limpamos as mesas e tiramos manchas dos teclados, mas ele se junta a nós por tempo suficiente para limpar o quadro negro guardar o aspirador de pó. Além disso, ele nos lembra que “faz seu trabalho” todos os dias. Isto é, as tarefas que as crianças fazem em turnos antes de ir para casa, pequenas coisas como alimentar o porquinho da índia, limpar em baixo das mesas, guardar as cadeiras e suprimentos.

Eu descobri que esta escola é uma exceção neste caso. Isso me surpreende, porque em todas as escolas que frequentei no Japão, as crianças não limpavam apenas suas salas de aula, mas também os corredores e áreas comunitárias. Nós limpávamos e lavávamos as janelas. Isso não era uma punição, de forma alguma; era o que tínhamos que fazer, e tínhamos orgulho de trabalharmos juntos para cuidar de nosso espaço. Acho que não pensávamos nisso, mas estávamos aprendendo sobre responsabilidade, respeito, realizações e cooperação.

Como a sala de aula, o dojô é um lugar importante – muitos diriam que talvez seja ainda mais importante que uma sala de aula, porque no dojô nosso trabalho é refinar habilidades que podem nos colocar no limite entre a vida e a morte.

Acredito que muitas pessoas hoje em dia confundem o dojô com algum tipo de centro de recreação. Mas diferentemente de um centro esportivo para levantamento de peso ou um ginásio para a prática de esportes, um dojô de artes marciais abriga o kami (deus) do budô. Isso quer dizer que em um dojô, o espírito do bushidô, ou uma lei de conduta, permeia o treinamento. Quando um dojô perde isso, sofre as consequências. Acredito que isso é o espírito do budô – este refinado sentimento de respeito – o que distingue um dojô, e é o que levamos em nós para nosso comportamento perante a sociedade.

O próprio ato de cuidar do dojô nos permite manifestar fisicamente o processo de purificação de nossos espíritos. Da mesma forma, as pessoas entram no dojô e deixam suas preocupações lá fora, o próprio dojô deve refletir a postura mental pura de seus ocupantes, para que os alunos possam se mover com segurança e liberdade no futuro pelo caminho do budô.

Infelizmente, às vezes vejo que alguns alunos consideram que o treinamento não tem nada a ver com este simples ato de cuidado. O espírito do dojô reflete a forma com que cada individuo encara seu treinamento, e isto inclui a forma como ele ou ela trata o próprio dojô. Acredito que uma pessoa que treina em um dojô deveria considerar que este espaço é, de alguma maneira, uma manifestação deles próprios, e deveriam encarar sua purificação da mesma forma que fariam a purificação e a renovação de seus próprios espíritos.

Através da história e das culturas, o ato de limpeza e purificação tem sido um gesto tanto prático quanto simbólico de grande significado. No Japão, este tipo de purificação ritual ou “misogi” é uma parte integral e muito importante da vida diária. Por exemplo, no final de dezembro, quase todas as pessoas em toda a nação cooperam dentro de suas famílias, escolas, companhias e dojô para limpar os lugares em que se reúnem. Ao fazerem isso, são capazes de receber o novo ano com seus ambientes purificados, bem como com suas almas purificadas. Outros rituais de misogi podem incluir a purificação do local da construção de um edifício antes que a obra comece. Antes de cada luta de sumô, o esporte nacional Japonês, os lutadores purificam o ringue aonde irão competir jogando sal sobre ele.

Parece um paradoxo que atos simples e mundanos possam ter o poder de transformar, mas este fato tem ressurgido repetidamente através dos tempos. Se polirmos o espírito, talvez um dia o espelho esteja imaculado, e então veremos nosso verdadeiro reflexo.

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* Hiroshi Ikeda – 7° Dan de Aikidô

Tradução para o Inglês: Jun Akiyama, editado por Ginger Ikeda

Tradução: Jaqueline Sá Freire – Brazil Aikikai – Hikari Dojo – Rio de Janeiro

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Bushidô – O Caminho do Guerreiro

03/06/2013

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Bushido (武士道) significa, literalmente, “caminho do guerreiro” – era um código de conduta não escrito e um modo de vida para os Samurai (a classe guerreira do Japão feudal ou bushi), que fornecia parâmetros para esse guerreiro viver e morrer com honra. O ideograma “do” (道), no sentido utilizado no termo japonês Bushido, é equivalente à forma chinesa “Tao”, e exprime o conceito filosófico de absoluto. Este conceito traz a ideia de origem, princípio e essência de todas coisas. 

O maior princípio do Bushido era buscar uma morte com dignidade, conforme expresso no Hagakure – “oculto nas folhas”, um dos mais importantes tratados acerca do Bushido, escrito por Yamamoto Tsunetomo, um samurai da província de Nabeshima, atual Saga, em 1716.

Um samurai jamais poderia se entregar e deveria estar sempre preparado para a morte. Além disso, a honra do samurai, de seus antepassados e de seu senhor deveria ser preservada por ele. Outros aspectos importantes é que um samurai jamais pode fugir de uma luta. Mesmo apenas um samurai contra um exército de oponentes, ele não pode abandonar a luta. O samurai também deve estar sempre do lado da justiça e ter compaixão com seu inimigo derrotado ou mais fraco. Lealdade, etiqueta, educação e noção de gratidão eram outras coisas que o Bushido pregava. Um samurai honrado deveria ser leal ao seu daimyo (senhor feudal), Shogun e Imperador.

No geral, guerreiro é aquele que busca seu próprio caminho. Muitas pessoas podem estar perfeitamente buscando o caminho sem saber disso. Guerreiro é a pessoa que tem um objetivo, e que por meio deste, passa a ter consciência de seu dom e suas limitações. Através dessa consciência, o guerreiro atinge sua meta, combinada com a vontade de vencer fraquezas, temores e limitações.

Cada pessoa trilha seu próprio caminho, já que existem vários caminhos: como o caminho da cura pelo médico, o caminho da literatura pelo poeta ou escritor, e muitas outras artes e habilidades. Cada pessoa pratica de acordo com a sua inclinação. Por isso pode-se chamar de guerreiro, aquele que segue seu caminho específico.

Porém, no bushido, a palavra guerreiro significa muito mais do que isso. O termo bushi não pode ser designado a qualquer um. O bushi é diferente, pois seus estudos do caminho baseiam-se em superar os homens. A casta guerreira se distingue das demais por sua fidelidade e honra, a palavra do guerreiro vale mais do que tudo.

O caminho do guerreiro é o caminho da pena e da espada, esse conceito vem do antigo Japão feudal e determinava que o guerreiro (bushi) dominasse tanto a arte da guerra quanto a da leitura, e que ele deve apreciar ambas as artes. O bushi deve aprender o caminho de todas as profissões; se informar sobre todos os assuntos; apreciar as artes e quando não estiver ocupado em suas obrigações militares, deverá estar sempre praticando algo, seja a leitura ou a escrita, armazenando em sua mente a história antiga e o conhecimento geral, comportando-se bem a todo momento para ter uma postura digna de um samurai, tudo isso sem desviar do verdadeiro caminho, o bushido.

A etiqueta deve ser seguida, todos os dias da vida cotidiana, assim como na guerra pelos samurais. Sinceridade e honestidade são as virtudes que avaliam suas vidas. Transcender um pacto de fidelidade completa e confiança esta ligada à dignidade. Os samurais também precisavam ter autocontrole, desapego e austeridade para manter a sua honra, em função disso, podemos dizer que o samurai é o guerreiro completo e seu código de honra – o bushido – tem forte influência no estilo de vida do povo japonês.

Para o bushido, exige-se que a conduta de um homem seja correta em todos os sentidos, dessa forma, a preguiça é um mal que deve ser abominado. Mas existem problemas quando a pessoa se apoia no futuro, pois torna-se preguiçosa e indolente, já que deixa para amanhã, aquilo que poderia ser feito hoje. Pessoas que agem dessa maneira, não seguem o verdadeiro preceito do bushido, que de um modo geral, é a aceitação resoluta da morte e esta pode chegar a qualquer momento.

Se o guerreiro tem plena consciência da morte, evitará conflitos, estará livre de doenças, além de ter uma personalidade com muitas qualidades e diferenciada às dos demais seres humanos. O guerreiro vive o presente sem se preocupar com o amanhã, de modo que quando contempla as pessoas, sente como se nunca mais fosse vê-los novamente, e, portanto, seu dever e consideração as pessoas, serão profundamente sinceros. O verdadeiro guerreiro é aquele que aceita a morte; dessa maneira, ele não irá se meter em discussões desnecessárias que venham a provocar um conflito maior, já que assim ele pode acabar matando ou sendo morto; esta última poderia resultar em sua desonra ou afligiria a reputação e nome de sua família.

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Os homens devem moldar seu caminho. A partir do momento em que você ver o caminho em tudo o que fizer, você se tornará o caminho”. Miyamoto Musashi (1584 – 1645)

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Sobre você e seus mestres – Por Yamamoto Tsunetomo

09/04/2013

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É falta de fibra imaginar que você não conseguirá alcançar o nível de seus mestres. Os mestres são homens. Você também. Se acha que será inferior ao fazer algo, com rapidez, então, você estará no caminho de realmente ser inferior”.

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*Yamamoto Tsunetomo – (Saga, 12 de Junho de 1659 a 1719) foi um samurai, monge budista e filósofo japonês. Os seus comentários sobre o Bushido foram compilados no Hagakure, um guia espiritual para os antigos samurais, considerado atualmente um dos mais importantes escritos sobre o pensamento nipônico da antiguidade.

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OS SAMURAIS E O JUJUTSU – Por Marcos José do Nascimento

24/11/2008

Os sistemas de combate desarmado no Japão têm a sua origem debitada a muitos homens, em especial aos samurais, exímios na arte da luta armada e desarmada. Foram eles os responsáveis pela criação de vários sistemas de combate com e sem arma, assim como a criação de diversas armas usadas nos combates, aprimorando o seu uso.

 

Os clãs japoneses eram os destinatários finais desse desenvolvimento de lutas armadas e desarmadas, pois patrocinavam esse desenvolvimento, ao mesmo que os samurais granjeavam maior projeção social nesse intercâmbio de interesses.

 

A partir do século XII, os bushis assumiram posição de liderança na sociedade japonesa e esse apogeu só findaria já na segunda metade do século XIX, a partir da Restauração Meiji, em 1868. Mas até lá, o domínio samurai determinou muitos dos valores e costumes da sociedade japonesa, influenciando sobremaneira toda a sua população.

 

Os valores transmitidos pelos samurais estão presentes hoje nas mais variadas formas de lutas japonesas, armadas e desarmadas. Elas são herdeiras desses valores e suas técnicas são a adaptação de técnicas mais antigas a uma nova realidade e necessidade hoje presentes em sociedades que não se utilizam mais da forma combate samurai usada no campo de batalha. No entanto, na época desses combates travados pelos bushis a habilidade técnica fazia a diferença entre a derrota ou a vitória, entre a vida e morte.

 

Os samurais possuíam nas formas armadas de lutar o principal meio de combate, e para uma eventualidade de perda de suas armas no campo de batalha, tiveram de desenvolver formas de combate desarmados. Essas maneiras de travar a luta sem armas, inicialmente, possuíam diversos nomes: Ywara, Tai-Jutsu, Kogusoku, Kempo e Hakuda, dentre eles.

 

A partir do século dezessete, o termo foi unificado sob o nome de Jujutsu, passando a identificar as diversas formas de luta desarmada que antes possuíam diferentes nomes.

 

Surgiram vários estilos de Jujutsu, denominados Ryu, alguns dos quais existentes até hoje no Japão. A versão da origem dos diversos estilos é variada, em alguns casos. Podemos destacar, entre outros estilos, o Yoshin-Ryu, Takenouchi-Ryu, Tenjin-Shinyo-Ryu, Shin-no-Shindo-Ryu, Kito-Ryu, Totsuka-Ryu, esta última praticada por diversos mestres da Academia de Polícia de Tóquio, na segunda metade do século dezenove.

 

Com a Restauração Meiji, em 1868, diversas práticas japonesas tradicionais começaram a ser vistas como anacrônicas pelos mais jovens e até por alguns adultos, devido à forte influência ocidental que tomava conta da sociedade japonesa da época. No entanto, ainda assim, diversos mestres e alunos, bem como considerável parcela da sociedade resistiu a esses ventos que varriam o cenário de então, preservando as práticas antigas, bem como as adaptando a uma nova realidade.

 

Dessa maneira, o Jujutsu que servia ao samurai no campo de batalha, foi se adaptando às necessidades do homem comum que vivia na cidade, bem como começou a perder o seu caráter secreto, pois até então, os conhecimentos eram passados pelo mestre do Dojô ao aluno que herdaria escritos secretos do funcionamento das técnicas, e as diversas academias não intercambiavam seus conhecimentos, mantendo-se isoladas umas das outras, devido à herança ancestral advinda desde quando os samurais tomaram as rédeas do poder no país, a partir do século doze.

 

Já próximo do final do século XIX e início, começa a despontar a idéia do “”, caminho, fazendo-se um transição do “Jutsu”, técnica, agora se trazendo uma preocupação mais voltada para a formação ética do combatente, em lugar de centrar-se os treinos apenas nas técnicas, não obstante não se pode afirmar que mesmo no período anterior não haver sido transmitidos ensinamentos de cunho moral e ético aos praticantes, contudo, a preocupação maior estava voltada para a técnica em si.

 

O primeiro a valer-se dessa idéia foi Jigoro Kano, criador do Judô, em 1882, ao transformar diversas técnicas de diversas escolas de Jujutsu em uma nova forma de combate que levou ao conhecimento do ocidente.

 

Com essa nova preocupação, percebeu-se que as práticas de arte militares propiciariam outros ganhos além do domínio de uma técnica de luta, mas contribuiriam para a formação do caráter do seu praticante, levando-o a prestar uma colaboração mais positiva na sociedade em que vivia. Aí nasce a fase do “”, saindo-se do “Jutsu”.

 

Usamos o termo “artes militares”, por entender que seja mais apropriado ao que costumeiramente conhecemos como “artes marciais”, posto que marcial é uma palavra ligada à Marte, o deus da guerra da mitologia romana, e o Japão não sofreu essa aculturação do ocidente, não obstante alguns mestres japoneses, em suas obras, usarem o termo “marcial” em referência a esses sistemas de combate, para um melhor entendimento dos ocidentais. E essas formas de combate são, na verdade, de origem militar, guardando, até hoje, traços característicos dessa identidade pela disciplina e hierarquia que promovem em seus ambientes.

 

É provável que algumas práticas ou praticantes, mesmo no dia de hoje, ainda não tenham se apercebido dessa realidade e, não obstante, estarem realizando uma prática dentro do “”, permaneçam mentalmente ainda no “Jutsu”.

 

Referências Bibliográficas:

 

01 – Jigoro Kano e T. Lindsay – 1887 (Relatório da Sociedade Asiática do Japão – Volume 15).

02 – The Father of Judo: a biography of Jigoro Kano – Brian N. Watson – Kodansha International – 2000.

03 – The Canon of Judo – Classic Teaching on Principles and Techiniques – Kyuzo Mifune – Kodansha International – 2004.

04 – Judo Formal Techiniques – A Complete Guide to Kodokan Randori no Kata – Tadao Otaki & Donn. F. Draeger – Charles E. Tutlle Companhy – 1997.

05 – Kodokan Judo – Jigoro Kano – Kodansha International – 1994.

06 – Segredo dos Samurais – As Artes Marciais do Japão Feudal – Oscar Ratti & Adelle Westbrook – Tradução de Cristina Mendes Rodrigues – Madras – 2006.

 

Colaboração: Marcos José do Nascimento – 1° Kyu (Faixa-Marrom) de Aikidô da Academia Central de Aikidô de Natal


A Introdução de Armas no Aikidô – Por Phong Thong Dang E Lynn Seiser

30/10/2008

Trecho do livro Aikido Weapon Techiniques

 

O Aikidô é uma arte marcial moderna não violenta, não competitiva. Ele coloca ênfase no desenvolvimento pessoa e espiritual, ao mesmo tempo em que preserva valores e aspectos tradicionais. O Aikidô também propicia habilidades de defesa eficientes e efetivas. O Aikidô é o caminho para a harmonia com a energia ou espírito do universo.

 

Inicialmente, o Aikidô apareceu com o objetivo de ser uma arte marcial usada para projetar oponente pelo uso do ataque. Muitas técnicas são realizadas na posição de tachi-waza (de pé) ou swari-waza (ajoelhado). O nage-waza (técnicas de projeção) do Aikidô é dinâmico e mostra-se sem esforço. O katame-waza (chave de junta, imobilização ou técnicas de imobilização) do Aikidô são dolorosos e exigem cooperação, concordância e submissão. Lamentavelmente, raramente se vê o buki-waza (técnicas de armas de madeira) ensinado ou demonstrado. As armas de madeira empregam e ilustram a mesma proficiência técnicas, as mesmas aplicações seqüenciais, e a mesma orientação conceitual, da mesma forma que as técnicas de mão-vazia. Algo que pode ser feito com a mão vazia pode ser feito com a arma de madeira.

 

O’Sensei Morihei Ueshiba (1883-1969), o fundador do Aikidô, pessoalmente treinou e praticou com armas de madeira. É sabido que ele, no meio da noite, recebia ensinamento do kamisama (espíritos). Ele observava outras escolas, estilos, ou sistemas de treino com armas e então adicionava seus conceitos únicos e movimentos para realizá-los dentro do caminho do Aikidô. Embora ser injusto e impreciso afirmar que o Aikidô utiliza-se das armas de madeira do mesmo modo que outras escolas, pode ser afirmado que outras escolas, estilos e sistemas estudados e observados por O’Sensei Morihei Ueshiba influenciaram sua incomparável adaptação das armas de madeira. No Aikidô, as armas de madeira são usadas para executar as técnicas e ilustrar os conceitos, elas não são vistas como separadas do corpo principal dos conceitos e técnicas do Aikidô.

 

Enquanto desenvolvia a arte do Aikidô, O’Sensei Morihei Ueshiba investigou e estudou aproximadamente duzentas artes marciais ou sistemas de jutsu. Daito-ryu aiki-jutsu é reconhecida como sendo a base para muitas técnicas desarmadas de Aikidô. Takeda Sensei (1859-1943), o fundador dessa arte, era um mestre esgrimista e especialista em armas que estudou diferentes sistemas de luta. As técnicas da Daito-ryu aiki-jutsu, contudo, análogas na aparência, não são as mesmas técnicas do Aikidô, devido à aplicação de O’Sensei Morihei Ueshiba do taisabaki (giro de corpo), irimi (entrada) e awase (união); sua aplicação e extensão do ki; e sua ênfase e foco no desenvolvimento espiritual e pessoal, além da marcial, combativa, ou efetividade e eficiência. O’Sensei Morihei Ueshiba agradeceu a ele ao lhe apresentar o verdadeiro Budô. Ele freqüentemente afirmava que o Aikidô é baseado na espada.

 

O’Sensei Morihei Ueshiba também estudou Yagyo Ken-jutsu, Hozon-so-jutsu (lança), e especialmente Kashima Shinto-ryu Ken-jutsu (que era um desdobramento do Katori Shinto-ryu). Na escola mais antiga de esgrima que O’Sensei Morihei Ueshiba prestou juramento de sangue, em 1937. Seu segundo filho, Kisshomaru Ueshiba (1921-1999), que mais tarde se tornou o primeiro Doshu, também teve um longo treino na Kashima Shinto-ryu Ken-jutsu. O’Sensei Morihei Ueshiba, então, observou seu filho treinar a técnica e a adaptou ao caminho ao aiki.

 

Embora o Aikidô possua essas raízes no treino de arma, muitos praticantes de Aikidô altamente qualificados despendem pouco ou nenhum tempo treinando diretamente com armas de madeira. Muitos sentem que em um mundo moderno, treinar com um bastão de madeira ou espada é antiquado e inútil. O fundador do Aikidô, Morihei Ueshiba, não estimulava o treino de armas na sua escola de Aikidô, conhecida como Hombu-Dojo. Hombu Dojo significa o “lar”, “quartel-general”, ou “escola principal” de treino. Correntemente o Hombu Dojo, estabelecido por O’Sensei, em Tóquio, Japão, e consagrado em janeiro de 1968 para a Aikikai Foundation perpetua suas técnicas, treino e visão de Aikidô. Portanto, não há um estilo do “Hombu” de luta de armas de madeira. Praticantes, nos primeiros dias do Hombu Dojo, assistem a aulas especiais ou seminários, ou tomam aulas particulares. Outros começam naturalmente a experimentar com armas de madeira eles mesmos. Muitos sentem as armas de madeira como secundárias para as técnicas de mão-vazia. O objetivo é usar as armas de madeira para ilustrar os princípios e os movimentos e treinar as técnicas de Aikidô contra elas, em vez de realmente ter um estilo de luta de armas separado e específico. Entretanto, O’Sensei Morihei Ueshiba sustentava os treinos de armas no Dojo de Iwama, sob a direção de Saito Sensei (1928-2002). Foi lá que os treinos de armas de Aikidô tornaram-se conhecidos como Iwama-ryu ou Aiki-ken e Aiki-jo, como um estilo um tanto distinto.

 

Sensei Phong Thong Dang

 

Sensei Phong Thong Dang detém um ryokuba (sexto grau de faixa preta) em Aikidô, um sexto Dan em Tae-Kwon-Do, um quinto Dan em Judô, e um oitavo Dan no Kung Fu Shaolin do Vietnam. O Salão da Fama das Artes Marciais Mundiais indicou Phong Sensei duas vezes, uma por sua especialidade em Aikidô, e outra vez por sua vida de dedicação às artes marciais, por mais de cinqüenta anos.

 

Tradução: Marcos José do Nascimento.

 

Colaboração: Marcos José do Nascimento – 1° Kyu (Faixa-Marrom) de Aikidô da Academia Central de Aikidô de Natal


Técnicas de Armas do Aikidô – Por Phong Thong Dang E Lynn Seiser

23/10/2008

Trecho do Livro – Aikido Weapon Techiniques.

 

A mística do uso de armas japonesas aparece no Kojiki, ou histórias lendárias do Japão antigo. O guerreiro feudal japonês era chamado de bushi, porém mais tarde se tornou comumente conhecido como samurai (significando “para servir”), o Período Muromachi (1392-1573). A profissão do bushi era o Bugei, ou artes marciais. Bugei, sistemas de artes marciais combativas efetivas, eram conhecidas pelo sufixo jutsu. Elas se desenvolveram sistematicamente por volta do século X, através da disciplina do treino tradicional vigoroso, para o único propósito da proteção do grupo. As artes marciais incluíam a arte de luta armada e desarmada, como também artes de camuflagem e ilusão, amarração, caminhada rápida e corrida, salto, escalada, esquiva, natação, fortificação, posicionamento estratégico, artilharia e tiro. Dentre dessas artes marciais de armas ou armadas estavam o Kyu-jutsu (arco e flecha), So-jutsu (lança), Gekikan-jutsu (esfera e corrente), Shuriken-jutsu (lançamento de lâmina), Jutte-jutsu (cassetete de metal), Tessen-jutsu (leque de ferro), Tetsubo-jutsu (bastão de ferro), Sodegarami-jutsu (trave pontuda), Sasumata-jutsu (forcado) e Juken-jutsu (baioneta). As armas mais comuns eram o Ken-Jutsu (esgrima ofensiva), Iai-jutsu (esgrima defensiva), Bo-jutsu (bastão longo de madeira) e Jo-jutsu (bastão curto de madeira) (Draeger e Smith, 1969, p. 83).

 

O código de ética moral do bushi, padrões morais, filosofia e consciência nacional, era o Bushidô, “o caminho do guerreiro”. Muitos reconhecem três estágios do Bushidô, Bushidô Marcial do século XI, Bushidô reformado, do século XVIII, e o moderno Bushidô do Século XIX (Random, 1977, p. 36-37). A essência do Bushidô repousa na justiça, coragem, benevolência, cortesia, honestidade, honra e lealdade (Draeger e Smith, 1969, p. 88-89). A função do samurai está presa ao conceito central do giri, ou responsabilidade. Para estar a serviço de seu senhor, o samurai seguia a responsabilidade e a obrigação de seu status, treinando para ser o melhor guerreiro, soldado, guarda-costas e protetor, possível. Os onze volumes do Hagakure, completados em 1716, são um clássico do Bushidô. A presença e aceitação da morte eram o tema central. Embora idealizada e romantizada, a vida do samurai era de auto-sacrifício, solidão, perigo, e, inevitavelmente, morte (com honra, era esperado).

 

O estilo de vida de um bushi era de um guerreiro em meio a guerras e luta. Mais tarde, o estilo de vida do samurai transformou-se passando a servir de outras maneiras, também. Ambos: períodos e modos de vida seguiam as linhas de direção do Bushidô e tornaram-se conhecidos como Budô. As artes do Dô desenvolveram-se dos sistemas do Jutsu, começando no século XVIII. Elas foram relacionadas com “objetivos mais elevados”, disciplina espiritual e ambos: auto-perfeição mental e física (Draeger e Smith, 1969, p. 90-91). As artes do Jutsu são sistemas de aplicação efetivos da prática eficiente de luta e combate. As artes do Dô são orientadas na direção do desenvolvimento pessoal e espiritual, através do treino físico. Aiki-jujitsu desenvolveu-se dentro do Ken-jutsu e Iai-jutsu desenvolveu-se dentro do Iai-dô, Kendô e Aiki-ken. Jojutsu desenvolveu-se dentro do Aiki-jô. Aikidô é uma arte moderna no verdadeiro sentido do Budô tradicional.

 

Pode ser afirmado que o Buki-waza do Aikidô, ou técnicas de armas, originam-se das técnicas de “mão vazia”, e que as técnicas de mão vazia originam-se das armas. As duas, contudo freqüentemente pensadas como muito diferentes, são muito interrelacionadas e interdependentes uma da outra. Nenhum sistema de mão-vazia é completo sem o treino de armas, e nenhum sistema de armas é completo sem conhecer como lutar com mãos vazias.

 

Sensei Phong Thong Dang

 

Sensei Phong Thong Dang detém um ryokuba (sexto grau de faixa preta) em Aikidô, um sexto Dan em Tae-Kwon-Do, um quinto Dan em Judô, e um oitavo Dan no Kung Fu Shaolin do Vietnam.

 

Tradução: Marcos José do Nascimento.

 

Colaboração: Marcos José do Nascimento – 1° Kyu (Faixa-Marrom) de Aikidô da Academia Central de Aikidô de Natal

 

 

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