O Treino de Sexta – Por Diogo Paschoal

13/05/2014

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Nessa última sexta, durante o treino com espada, finalmente, eu consegui entender um erro besta, mas que fez muita coisa fazer sentido.

Sensei James tem frisado bastante o movimento com a espada em cada uma das mãos, separadamente. Primeiro fazemos com uma, depois fazemos com a outra. Eu achava que era só pra entendermos como segurar a espada de forma correta, como movimentarmos ela de forma correta.

Desde a primeira vez em que comecei no aikido (em 2009), e comprei minha espada, eu treinava no quintal de casa, na areia mesmo e repetia os mesmos movimentos por um tempo razoável. Corte na linha do shomen, corte na linha de yokomen. Sempre procurando prestar atenção na noção de centro e sempre atentando para o tai sabaki.

Depois de 4 anos afastado e fazendo uns 8 meses desse retorno, no treino de sexta, ainda percebi o mesmo erro: o corte em zigue-zague, Um “S” que a espada faz ao descer eu sempre me perguntava: – o que diabos eu tô fazendo errado??? – Por que danado essa espada não desce reta? – Será o lance de “tremor essencial” que minha família tem? Uns tremores quase imperceptíveis dos membros, mas que não são parkinson.

Juntando algumas coisas que o senpai Iran tinha me ensinado em um dia de treino com espadas com o que Sensei James tem repetido e insistido de forma tão sábia, acho que entendi o que provavelmente a maioria de vocês já sabem: usar a força das duas mãos. Ora, eu estou descendo a espada com as duas mãos. Eu não posso desequilibrar a força de uma com a outra. As duas tem que doar a energia necessária de forma equilibrada para que o corte saia certo, coerente, firme, mas com sensibilidade suficiente para que as duas se harmonizem.

A partir disso, outra coisa bacana me veio à cabeça, sobre o estudo de uke que venho fazendo: temos um uke e um nage dentro de nós o tempo todo. Vemos isso na natureza, na homeostase, na entropia, em tudo… O tempo todo, temos forças conflitantes dentro de nós, que, na maioria das pessoas, só chega ao ponto de equilíbrio quando estamos pertinho de fechar os olhos pela última vez.

Assim como o estudo de uma coisa simples como o descer de uma espada merece atenção, cuidado, carinho e sensibilidade, eu percebo o quão importante tem sido doar a energia necessária da firmeza, do amor, da imperatividade, da calma e estudar isso. Vejo isso no meu filho, quando procuro educá-lo. Vejo isso na minha esposa, quando procuro entender os anseios dela, vejo isso nos meus amigos, quando procuro entender o ciclo da vida deles, vejo isso em mim, quando procuro entender que tenho um uke extremamente agressivo, territorialista, arrogante, bruto e que vai aprendendo aos poucos a doar a energia necessária para que o nage execute as tarefas do dia a dia.

Sempre me cobrei tanto, sempre fui tão exigente em fazer as coisas da forma correta, ter valores excelentes, um caráter irrepreensível que, quando falhava de forma miserável, eu sentia o peso de tudo e todo o trabalho parecia perdido. Passei 4 anos afastado do aikido, e sempre me prometendo voltar, lembrando do que Sensei Sérgio falou uma vez sobre as correntes que criamos para nós mesmos, que nos prendem a maus hábitos e a coisas negativas. E, quando passei a me aceitar, a abraçar meus erros e entender que eles fazem parte de quem eu sou, comecei a ter mais força pra trabalhar esses erros, a quebras as correntes, a ser um uke melhor para meus colegas, para meu filho, para minha esposa e passei a me respeitar e amar mais, afinal, se eu não conseguir ser um bom uke para meu nage interior, nunca vou conseguir fazer um shomen em linha reta, nunca vou conseguir sequer andar sem tropeçar e me sentir animado a continuar andando.

Sinto uma enorme gratidão a meus colegas por terem me proporcionado isso e aos sensei que tem nos acompanhado no aprendizado que só acaba quando descansamos no final da vida.

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*Diogo Paschoal, faixa-amarela, Aluno da Academia Central de Aikidô de Natal.

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O Aikido e a Espada – Por Stanley Pranin

11/11/2013

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O Fundador demonstrava grande interesse pela espada durante toda a sua carreira nas artes marciais. Ele chegou a receber um certificado de uso de espada do Yagyu Shinkage-ryu de Sokaku Takeda em 1922, apesar do fato de que o conteúdo de seu treinamento de espada com Sokaku não ser conhecido. Posteriormente, em 1937, ele oficialmente se uniu à escola clássica Kashima Shinto-ryu que teve influência em suas experiências com o uso da espada, especialmente durante os anos de Iwama, de 1942 até cerca de 1960.

O-Sensei não tentou codificar ou desenvolver um kata de espada para ser usado formalmente no treinamento do aikido. A espada era, para o Fundador, uma extensão do poder divino, para ser usado exclusivamente com o propósito de dar a vida. Seu trabalho com a espada — e pode-se dizer o mesmo em referência ao jô – era simplesmente uma ferramenta diferente para a expressão do movimento do aiki baseado nos mesmos princípios universais que as técnicas de taijutsu.

Como a espada é uma extensão do corpo, certos usos e princípios dos movimentos são compreendidos melhor e com mais clareza em comparação com as técnicas de mãos livres. O Fundador frequentemente ilustrava um movimento ou algum princípio com e sem sua espada durante o treinamento para esclarecer seu inter-relacionamento.

Assim, as comparações do uso da espada por O-Sensei com as escolas clássicas são inúteis, pois sua intenção não era ensinar técnicas de campo de batalha mas sim demonstrar como a energia divina é canalizada através do corpo humano, pelo espaço a sua volta e através de todo o Universo.

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Fora da Linha de Choque – Por Richard Moon

16/10/2013

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Ficar “fora da linha de choque” é o primeiro passo da relação de harmonia. Na prática do Aikido no tatame, isso significa ficar fora do caminho de um ataque, do golpe de uma espada, de um empurrão físico ou de uma tentativa de agarramento, O ataque serve como uma metáfora para qualquer mudança ou pressão na vida diária. A pressão do ataque representa a pressão da vida diária: o tempo, o stress psicológico e emocional, etc.

Ficar fora da linha de choque é uma técnica poderosa, especialmente quando o atacante tem a intenção de causar mal — do ponto de vista físico, político ou social. Se você não “estiver lá” para receber o ataque e o seu adversário não conseguir acertar o golpe, ele não poderá machucar você. Fora da linha de choque, a energia que seria gasta para se defender fica disponível para ser usada no processo criativo.

O movimento de sair da linha do choque pode ser descrito num contexto emocional como “não levar para o lado pessoal“. Fique fora da linha de choque. Não deixe que a interação com outra pessoa se torne uma questão pessoal. Opte por aceitá-la e compreender o seu significado como uma expressão do modo como ela se sente. Aceitação não significa necessariamente concordância. Se não tomar a reação do outro como uma afronta, você ficará livre para iniciar um diálogo genuíno. vocês podem buscar soluções criativas juntos, em vez de se perderem em argumentos negativos ou defensivos, que mais drenam que vitalizam e diminuem a qualidade do relacionamento.
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*Richard Moon — em Aikido em três lições simples.
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O Valor do Silêncio – Por Charles Richet

21/01/2013

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“Eu não tenho espada, faço da minha calma e silêncio espiritual minha espada.” Tradição oral samurai.

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Silêncio… o que é silêncio? Qual é sua natureza, aplicação e repercussão? O silêncio é uma constante japonesa, não uma prática, é algo já arraigado, é o normal, não o almejado nos meios tradicionais. É de muito mau gosto ou ignorância interromper uma ação ou um estado natural de quietude com algum comentário desnecessário e/ou fora de contexto. Mas vamos com calma, parcimônia e sabedoria, afinal, somos brasileiros, fora deste contexto oriental.

Silêncio, do latim silentiu, do dicionário Michaelis: “3 Abstenção voluntária de falar, de pronunciar qualquer palavra ou som, de escrever, de manifestar os seus pensamentos”. Sileo- silentium, que significa: estar em repouso, tranquilidade, descanso, ausência de qualquer estorvo. Etimologicamente, a palavra silêncio remete a silentium, silere, cujo significado encontra-se em sileo, cujo sentido é calar, omitir-se.

O silêncio é um meio de aprendizado comum ao budo. A partir do silêncio interior o aluno coloca-se pronto a receber o conhecimento oferecido pelo mestre. Ao postar-se em silêncio e perceber com consciência o que é demonstrado, o deshi tem uma condição melhor de internalizar o que é ministrado. Assim sua percepção sobre a natureza da prática amplia e amadurece.

No dojo de Aikido, assim como em Nihon no Dojo, silêncio é algo essencial. O aluno não deve manifestar-se se não foi requerido ao mesmo. Aqueles que chegam ao dojo no meio de uma aula já em curso não devem comunicar-se com os que já estão praticando e o mesmo vale aos que estão no tatame, não devem dar boas vindas e outras expressões. Durante a prática o sensei e os alunos mais graduados devem ser respeitados em suas orientações, não precisando contar com uma segunda voz ao guiar uma instrução. Se seu sensei chegou perto de você durante uma orientação que você possa estar passando a um companheiro, silencie-se e deixe que o sensei, que atenho certeza é o mais qualificado, observe e oriente as dúvidas de seu parceiro, e as suas TAMBÉM. Não chame o sensei, não use o imperativo, ex. “repita isso para mim sensei; sensei faça isso”. Sempre que for necessário tirar uma dúvida durante a prática espero o sensei chegar, e se nesse tempo ele demorar vá praticando o seu melhor e não se preocupe com a prática de seu companheiro, não interfira, não oriente, principalmente e muito principalmente se você não é instrutor qualificado. Particularmente, em nosso dojo o aluno que tem permissão de orientar superficialmente seus colegas tem desígnio público meu, sendo vedada essa prática a outros alunos, iniciantes, alunos graduados e alunos visitantes. Enfim, se você acha que pode orientar seu colega é porque ou você tem permissão do sensei ou é porque já tem conhecimento suficiente das regras do dojo e, portanto, deve esperar em silêncio e quietude. Lembre-se: não interrompa o sensei, seus kohai e senpai, não converse, treine, treine e treine mais!!!

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Uma xícara de Chá

Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas.Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:”Está muito cheio. Não cabe mais chá!“”Como esta xícara,” Nan-in disse, “você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?

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*Charles Richet – é fukushidoin e faixa preta 3º grau, com ambas as certificações conferidas pelo Hombu Dojo Aikikai, Tóquio. Responsável pela Sociedade Círculo da Paz em Brasília/DF.

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Kenjutsu – A Arte da Espada

14/01/2010

O Kenjutsu (a arte da espada) é reconhecido geralmente como arte combativa. Começa sempre com a espada desembainhada, já com uma intenção agressiva. Os ensinos sistemáticos históricos primeiramente registrados da espada longa japonesa começaram aproximadamente em 800 d.C. Desde esse tempo, de cerca de 1.200 estilos (escolas) foram documentados. Muitos praticantes do kenjutsu começaram a questionar se uma compreensão mais elevada poderia ser conseguida com a prática e o estudo com a espada. Assim, o kenshi (espadachim) transformou a “arte da espada” (kenjutsu) em um “caminho da espada” (kendo). Daí surgiu o kendô, por volta do século II.

Kenjutsu é considerado um bujutsu clássico (arte da guerra ou arte marcial), sendo formulado bem antes da reforma de Meiji (o clássico/moderno, que divide a linha). O ryu (escolas) clássico do kenjutsu tende a ser completamente secreto no que diz respeito à prática de suas técnicas, sendo muito fechada a pessoas de fora da Arte do Bugei. O ryu clássico do kenjutsu é o mais próximo ao treinamento clássico do guerreiro no mundo moderno. Os exemplos são Yagyu Shinkage Ryu, e Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu.

A utilização da Katana, dentro da vestimenta do Kenjutsu tradicional, consiste geralmente do hakama, no keikogi e da obi (faixa).

Os Kata (seqüência de movimentos formulados ou exercícios) é a maneira usual de aprender os movimentos intricados requeridos. Inicialmente pratica-se individualmente, mas pode-se praticar em dupla ou até mesmo com múltiplos indivíduos. A ferramenta-padrão da prática é a bokken (espada de madeira simulada) ou uma lâmina real. O corte real, e o golpe da lâmina contra feixes amarrados e caules de bambu, chamado de tameshigiri, dão à prática mais avançada do ryusha (praticante de um estilo) o impacto real da lâmina de encontro a um alvo.

Geralmente (mas não sempre) em artes marciais japonesas, os objetivos do “Do” são para melhorar o interior, enquanto os do “jutsu” concentram-se em ensinar as técnicas da guerra. Note que isto é uma convenção moderna, não algo que reflete o uso histórico dos sufixos: o que nós chamamos agora de kenjutsu pode uma vez ter sido usado como o kendo.

A convenção da terminologia de jutsu/do tal como é usada no ocidente foi popularizada em sua maior parte por Draeger. Definindo terminologicamente, a arte de ganhar lutas reais com espadas reais é kenjutsu. O objetivo preliminar do kenjutsu é vitória sobre oponentes; o objetivo preliminar do kendô é melhorar-se com o estudo da espada. O kendô tem também um aspecto forte, com os grandes campeonatos, assistidos avidamente pelo público japonês. Assim, o kendô pode ser considerado o aspecto filosófico/esportivo japonês.

Em termos de aprendizagem, o kenjutsu tem um currículo mais completo. No kendô, a necessidade limita a escala das técnicas e dos alvos. Os praticantes de kenjutsu não usam geralmente o shinai no treinamento, preferindo usar bokken (espadas de madeira) ou katana (espadas de aço) a fim de preservar as técnicas do corte da luta real da espada. O treinamento de Kenjutsu consiste em praticar a técnica do corte e executar o kata com o parceiro. Por razões de segurança, a prática livre é raramente feita com katana.

Colaboração: www.bugei.com.br


A ARTE DE CEDER – Por Marcos José do Nascimento

26/11/2009

Em minha adolescência, quando iniciei os meus treinos de Judô com Sensei Ceny Peres Barga, no Ginásio Portuário, no Rio de Janeiro, eram enfatizados os aspectos dos ensinamentos filosóficos de Jigoro Kano, e um deles passado para nós era o seguinte: “O Judô, quando empregado, é tão perigoso quanto uma espada desembainhada, o melhor modo de usá-lo é não o empregar. Ceder para vencer”.

Ceder é uma prática pouco difundida em sociedade, pois, em geral, o ser humano é ensinado, e não educado, a conquistar seus espaços a qualquer custo, de qualquer maneira, qualquer seja esse espaço, e em o conquistando, nele permanecer de igual maneira, da mesma forma que o conquistou, quando não descobrindo novas formas de manutenção no posto, sejam quais forem essas formas.

O Jujutsu marca, pode-se especular, de certa maneira, uma nova maneira de prática de arte marcial, posto que o seu princípio guarda relação com a suavidade, com a flexibilidade, e acredito que no momento anterior à sua existência o modo de praticar-se a arte marcial desarmada fosse talvez mais rígido, menos suave, menos flexível.

Jigoro Kano afirma em seus escritos que o termo Jujutsu talvez se tenha originado da expressão: “Ju yoku go o seisu”, significando, “Flexibilidade Controla a Rigidez”. Na flexibilidade está implícita a idéia de ceder.

Judô e Aikidô são duas artes marciais que empregam a idéia de ceder, embora no primeiro nas competições alguns atletas não se utilizem desse princípio, enquanto outros o utilizam como forma de condução do oponente para uma posição que facilite a aplicação de sua técnica.

Fora os aspectos competitivos do Judô, nas suas demais práticas, ceder é uma constante, no treino técnico, nos seus diversos katas, enquanto no Aikidô essa constante é sempre presente, posto que neste não há alguma forma de combate, no qual um dos praticantes tenha que ser considerado vencedor, inexistindo a figura do oponente na outra pessoa.

Nos treinos de Aikidô, o uke cede o seu corpo para que o tori (ou nage) aplique uma técnica, de igual maneira acontece no Judô, existindo neste apenas uma hipótese em que tal não ocorre, é o chamado “tendoku geiko” (treinamento solitário) no qual o judoca realiza as movimentações de igual forma como se contasse com uke, que na verdade não está presente.

Tanto Jigoro Kano quanto Morihei Ueshiba, respectivamente, criadores do Judô e do Aikidô enfatizavam o uso das artes que criaram fora do ambiente do Dojô, no que se refere a transferir os comportamentos levados a efeito dentro dos treinos para a sociedade, colaborando com ela. E um desses aspectos é o hábito de ceder, entre outros tantos ganhos que vão sendo conquistados ao longo de uma prática continuada.

A imagem do atleta que, na propaganda televisiva, quando chega o elevador, cede a vez para outra pessoa, é um aspecto de gentileza e educação repetido no ambiente do Dojô, e a oportunidade de ceder, pelo exercício da flexibilidade mental, vai-se estendendo aos poucos, para outras posturas mentais e sociais, tornando o praticante, paulatinamente, menos rígido com os outros e consigo mesmo, salientando que todo trabalho de transformação do ser humano, incutindo-lhe novos hábitos mentais e sociais é uma tarefa demorada que tem de contar com a boa vontade do próprio ser, uma vez que na sociedade nem sempre se pode contar com a boa vontade alheia, e transformação que precisa operar-se é em cada ser, em lugar de primeiro dar-se com o outro para que cada um transforme-se.

É uma ação que reclama internalizar os conceitos aprendidos, transformando-os em práticas ao longo do tempo, dentro e fora do Dojô, mesmo que, aparentemente, pequenas, sem grande destaque, sem grande realce social, mesmo sem ser percebida pelos demais, pois, de outra maneira, o discurso não passará de uma bela retórica, o que não falta nos mais variados ramos da atividade humana.

Quando Jigoro Kano afirmava “ceder para vencer”, este vencer reporta-se a vencer a si mesmo, e não o oponente, posto que, em última instância, mesmo na competição em que se busca uma vitória sobre o outro, vence-se a si mesmo, superando-se a si mesmo numa limitação, conquanto essa vitória seja sempre efêmera, mui passageira, como também enfatizava o criador do Judô, quando afirmava que num combate, tanto quem vence, quanto quem perde, encontram-se ambos no mesmo patamar, no mesmo nível.

A arte de ceder, presente no Judô e no Aikidô, herdada do Jujutusu, reclama comportamentos de cooperação, dentro e fora do Dojô, ajudando na construção de uma sociedade melhor, por meio da melhoria dos seus integrantes, e, neste aspecto, tanto o Aikidô quanto o Judô, em suas essências, buscam colaborar na mudança para melhor do ser humano, colaborando com a sociedade como um todo, melhorando-a pela transformação de seus integrantes.

Referências

– MIND OVER MUSCLE – JIGORO KANO – 2005 – KODANSHA.

*MARCOS JOSÉ DO NASCIMENTO – Servido Público Federal – Faixa-Preta de Judô e Aikidô – Aluno da Academia Central de Aikidô de Natal.


A História da Espada Japonesa

15/09/2009

Durante do período Jokoto (800 dC), as espadas usadas eram retas, com fio simples ou duplo e pobremente temperadas. Não havia um desenho padrão, e eram atadas à cintura por meio de cordas. Evidências históricas sugerem que elas eram feitas por artesãos chineses e coreanos que trabalhavam no Japão. As primeiras espadas que se tornaram a arma padrão do samurai foram feitas pelo ferreiro Amakuni, em meados do século VIII.

A adoção do eficiente fio curvado foi um grande passo tecnológico para a época, que coincidiu com as melhorias nas técnicas de temperamento. A era de ouro da manufatura de espadas deu-se sete séculos mais tarde, entre 1394 e 1427. De qualquer modo, quando se estabeleceu a infantaria de massa em substituição à cavalaria das épocas anteriores, a pesada espada do tipo “tachi”, que servia ao cavaleiro montado, foi substituída pela leve kataná, mais curta. Antes, o cavaleiro portava a espada com a lâmina para baixo e a desembainhava em um movimento para cima, de modo que não ferisse o cavalo. Já a kataná passou a ser portada com a lâmina voltada para cima.

Tal mudança na forma de porte da espada significou o início de um método de combate completamente novo, que teria um efeito dramático no modo como o samurai encarava a guerra.

Com a espada segura firmemente na cintura, o samurai a sacava e cortava rapidamente num só movimento, defendendo-se sem precisar sacar primeiro e só então adotar uma postura defensiva. Desde então, o Kenjutsu (uso da espada já sacada) e o Battojutsu (saque e corte imediato) tornaram-se disciplinas separadas, porém paralelas. Várias escolas e sistemas se estabeleceram, então, para o ensino de ambas.

Durante o Sengoku Jidai, a falta de um governo central forte encorajou os daimyo a lutar entre si para expandir territórios. Cresceu a demanda por armas, e os ferreiros iniciaram uma produção em massa de espadas de baixa qualidade. Antes, o aço era cuidadosamente elaborado, forjado e temperado num processo artesanal. Depois, passou a ser importado de forma já pronta, para facilitar a forja rápida. A espada resultante, embora bela, era menos durável e imprecisa. A verdadeira beleza da espada está em sua precisão, durabilidade e aparência. Só quando esses três elementos estão combinados, a arma terá boa performance nas mãos do espadachim.

Espadas que avariam em contato com um objeto duro, ou que revelam uma parte interna de baixa qualidade, não podem ser consideradas legítimas “Nippon To” (espadas japonesas). Não merecem compartilhar da reputação estabelecida pelas lâminas dos grandes mestres ferreiros, que produziam com métodos tradicionais. Hoje, apenas as escolas de Toyama e Nakamura fazem o teste de corte (Tameshigiri). No final da batalha de Sekigahara, em 1600, venceu o general Tokugawa Ieyasu, e seguiram-se trezentos anos de paz.

Nesse período, não havia outro modo de testar uma espada senão pelo corte de corpos de criminosos mortos. Portar espada era proibido, segundo a lei de 1876. Desde que surgiu um interesse no Ocidente pelas artes marciais do Japão, estipulou-se que a verdadeira arte da espada morreu com a restauração Meiji, ou logo após o uso de espadas pelos samurais ter sido esquecido. Alguns historiadores afirmam que a arte da espada começou a declinar após a batalha de Sekigahara, no período Tokugawa, e nunca mais foi recuperada. A conclusão é que a arte da espada morreu no final do século XIX.

Felizmente, nada disso é verdade. Em 1875, no começo da era Meiji, o Japão vislumbrava seu moderno futuro industrial e a Toyama Gakko, sob nova direção, provou ser o veículo a carregar a tradição da espada rumo ao século XX. Fundada para treinar guerreiros militares, além de outras disciplinas, sua base era o “Gunto Soho”, ou “método da espada militar”. Essa combinação de técnicas de antigas escolas famosas, principalmente a Omori Ryu, e sua adoção pelo exército, levou mais tarde à fundação da escola Toyama de espada, em 1925.

Outras escolas, entretanto, não obtiveram o mesmo sucesso. Escolas que antes ensinavam os antigos métodos de samurai agora voltavam-se ao mercado de massa. Em 1870, muitos dojôs na área de Tóquio ensinavam técnicas menos vigorosas. Quando o Kenjutsu dos samurais tornou-se o Kendo do praticante comum, muito da tradição foi perdido.

Porém, as artes tradicionais ainda sobreviviam em algumas escolas militares. Até hoje, o Battojutsu permanece pouco conhecido fora dos círculos militares. A beleza dessa arte consiste em sua simplicidade e eficiência mortal, sem posturas artificiais ou teatrais. Ela é simplesmente uma maneira eficiente, prática e rápida de cortar um oponente num decisivo ato de auto-defesa. Seu poder destrutivo é devastador. O Battojutsu pode apenas ser aprendido em uma escola tradicional onde os métodos antigos, baseados numa experiência de combate real, ainda são seguidos. Então, o método do corte pode ser compreendido em sua plenitude.

Colaboração: www.bugei.com.br


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