O SENTIDO DO AIKIDO HOJE – Por João Tinoco Sensei

13/11/2017

Os meus primeiros estágios de Aikido, há já mais de vinte anos, foram os estágios orientados pelo Mestre Georges Stobbaerts no Ten Chi, na Várzea de Sintra. O tapete era enorme e o Mestre gostava de fazer as saudações no início e fim das aulas com todos os participantes alinhados à volta do tapete, em forma de “u”, em vez da mais comum forma em linhas paralelas de acordo com a orientação do dojo. Usávamos cintos coloridos, do branco ao preto, o que permitia ver perfeitamente o número de alunos por cada grau. Muitos cintos brancos — os iniciados — e uma quantidade cada vez menor de alunos por cada grupo de cores, até chegar ao cinto castanho. A seguir vinham os cintos pretos, que usavam um hakama1 também preto e eram novamente um pouco mais por terem no seu seio um conjunto grande de diferentes graduações. Da leitura deste “u” que todos formávamos, facilmente se concluía que apenas uma pequena parte dos praticantes chegaria um dia a yudansha2 e que a grande maioria dos participantes nos estágios era de principiantes ou gente ainda com pouca experiência.

O cenário mudou radicalmente de então para os dias de hoje. Seja qual for a escola ou grupo que organize um estágio de Aikido, invariavelmente o tapete está cheio de praticantes avançados e os cintos brancos ou coloridos3 são uma evidente minoria. Qual a razão para esta diferença? A resposta parece-me óbvia, por mais dura que possa ser para um professor de Aikido: não há entrada de novos praticantes em número suficiente para compensar os que abandonam a disciplina. Os praticantes mais avançados, para quem o Aikido tem já um lugar importante na sua vida continuam a prática, mas não há uma procura que compense as desistências a meio do percurso, normais em qualquer arte marcial. E este fenómeno não é apenas português; é internacional.

Há então que enfrentar a realidade: o Aikido perdeu nos últimos tempos grande parte do seu poder de atracção e esta quebra tem as suas razões.

Vivemos numa sociedade ao mesmo tempo muito competitiva e desespiritualizada (não estou certo que o termo exista). A competição é estimulada desde os primeiros anos de escola e aceite como forma de organizar o trabalho e a vida. Simultaneamente, as manifestações de vida espiritual — sejam religiosas ou outras — são desvalorizadas ou substituídas por produtos de auto-ajuda ou prometedores de um conforto emocional rápido (e evidentemente falso). Ora, nos últimos anos têm aparecido inúmeras disciplinas no campo das artes marciais que oferecem eficácia — falaremos mais à frente do que isso é — em pouco tempo e com uma aplicação prática mais evidente. Para já não falar do crescimento dos chamados desportos de combate, alguns deles modalidades olímpicas, que oferecem o aspecto competitivo que o Aikido não tem. No caso de Portugal, com a particularidade de, nos últimos anos, se terem conseguido resultados de nível internacional, naturalmente mobilizadores para os mais jovens e seus pais.

Neste cenário, o Aikido está aparentemente num beco sem saída. Se no início da sua expansão pelo ocidente oferecia a novidade de uma prática marcial suportada por um trabalho espiritual, de transformação pessoal e de visão do mundo — por mais diferentes que fossem as suas variantes — essa oferta parece não ter hoje muitos destinatários. Por outro lado, face às novas promessas de artes com aplicação prática simples e resultados imediatos, ou face às disciplinas desportivas competitivas, o Aikido parece não ter nada a oferecer. Aparentemente, propõe algo que as pessoas não querem, exigindo em troca o que não têm: paciência e um gosto pelo caminho maior do que pelo destino.

No Aikido não existem progressões rápidas. Mais do que situações concretas como “a um ataque do tipo X responde-se da forma Y”, trabalham-se princípios aplicáveis de forma diferente em diferentes situações. Educa-se o corpo e a mente através de um trabalho do movimento e de todos os elementos que o compõem (deslocação, respiração, concentração…) Não é portanto possível exigir resultados rápidos e esses mesmos resultados, não havendo competições nem metas definidas no tempo, dependerão dos objectivos de cada praticante. Mais ainda, as técnicas de Aikido são deliberadamente trabalhadas por forma a não provocar danos no parceiro de prática o que é, aparentemente, um paradoxo difícil de resolver.

O Aikido é, por tudo isto, visto muitas vezes como uma arte ineficaz. Este conceito é no entanto uma grande armadilha uma vez que, e logo à partida, a eficácia de qualquer actividade só pode ser medida tendo em conta os seus objectivos. Se o objectivo for, num mês, treinar um soldado para um cenário de guerra, o Aikido é muito provavelmente ineficaz. Se o objectivo for, através do estudo de uma arte marcial, melhorar a autoconfiança ou a concentração, talvez seja realmente eficaz.

Cabem-nos portanto a nós, professores, duas tarefas: Uma, ser pacientes e aceitar que o panorama por agora é este mas que as coisas não vão ser assim sempre. Outra, fazer tudo o que está ao nosso alcance para mostrar a quantidade de coisas que a nossa arte tem para oferecer e que, mesmo à luz dos nossos dias, tem validade, quem sabe até mais do que nunca. E o trabalho no tapete, com os alunos que investem connosco algum do seu tempo é talvez a melhor ferramenta de divulgação. É essencial que aquilo que ensinamos seja sentido como importante por quem pratica e, não tendo na manga um estrangulamento que resulta sempre ou uma medalha para o melhor, aquilo que importa terá de ser de outra natureza. Para as crianças o Aikido deverá ser uma ferramenta auxiliar na sua formação e para todos, grandes e pequenos, terá que trazer qualquer coisa mais que nos ajude a crescer, sentir integrados, enfim, que faça de nós melhores Seres Humanos.

Devemos procurar que a transmissão seja feita de uma forma adequada aos tempos, sem no entanto desvirtuar o Aikido que chegou até nós (nas suas diversas leituras). O respeito pelo passado deve ser mantido, mas de maneira a que aquilo que nos foi transmitido tenha uma utilidade no presente. Enquanto veículos da nossa arte, devemos procurar manter-nos actualizados por forma a melhorar sempre e de novo, não só a forma como ensinamos mas também também a nossa própria compreensão do que transmitimos. É uma questão de honestidade para com quem nos ouve e em si mesmo uma expressão de um dos fundamentos do Aikido: a adaptabilidade.

*JOÃO TINOCO é 4º Dan Aikikai. Pratica Aikido e Jodo sob a orientação de Vicente Borondo, 5º Dan Aikikai e Menkyokaiden de SMR Jodo da Federação Europeia de Jodo.

Texto escrito em Português de Portugal e publicado originalmente em: https://sayanouchi.wordpress.com/2017/11/12/o-sentido-do-aikido-hoje

 

  1. Calças largas com pregas com origem na indumentária dos samurai.
  2. Praticante que possui um grau Dan.
  3. Em algumas escolas os praticantes com graus Kyu usam cintos coloridos, noutras apenas se usa o cinto branco para Kyu e preto para Dan.

 

Colaboração:

http://www.sayanouchi.wordpress.com

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Aikidô como um mero passatempo? – Por Stanley Pranin

19/06/2012

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Tenho me referido em artigos recentes a respeito de nossas estimativas do grau de crescimento do Aikidô tanto no Japão quanto no exterior. Apesar de que nossas projeções relativas ao número de praticantes sejam inferiores a diversas estimativas oficiais, eu acredito que elas tampouco representem sólidas evidências da penetração do Aikidô nas maiores culturas mundiais. Com isso em mente, tenho alguns pensamentos sobre a forma de como o Aikidô é praticado em muitas escolas hoje em dia e suas implicações no desenvolvimento da arte no longo prazo.

O Aikidô é frequentemente referenciado como um esporte em conversas com não praticantes. Quando isso acontece por vezes nós nos opomos ao termoesporte e esclarecemos que o Aikidô é na verdade umaarte marcial”. Mas se olharmos cuidadosamente perceberemos que as pessoas normalmente usam o termo “esporte” num significado mais livre da palavra, e na verdade o que querem realmente dizer é alguma coisa relacionada a passatempo ou atividade de lazer ao invés de uma atividade de competição. Se pararmos e refletirmos por um instante, muitos do que estão engajados na prática do Aikidô hoje em dia realmente a tratam-no como um passatempo, hobby ou uma forma de exercício.

Como essa atitude se expressa no treino? Uma ideia que imediatamente vem à mente é essa da forma como o Aikidô é praticado em muitos dojôs, o movimento do uke nada mais é que uma caricatura de um ataque. Isso se deve à ênfase na execução da técnica em oposição ao ensino básico de como executar ataque sincero e controlado. Ataques fracos e sem comprometimento são também a maior causa das críticas sobre o Aikidô por praticantes de artes marciais. Além de ser difícil ou mesmo impossível efetuar uma técnica adequadamente contra um ataque sem sinceridade, uma atitude de tamanho relaxamento contribui para o desenvolvimento de hábitos de treinamento frívolos e lânguidos da parte tanto do uke quanto do nage. Esses são, em troca, contraprodutivos ao desenvolvimento da força muscular e das juntas e do condicionamento geral necessário para a prática segura das poderosas técnicas do Aikidô. Eu acredito que a principal responsabilidade por essa forma casual da prática do Aikidô é dos instrutores que não foram capazes de captar a essência dos métodos e intenções do fundador ao criar a arte.

É necessário que as técnicas do aikidô sejam eficazes?

Ás vezes também é discutido que as técnicas do Aikidô seriam de uso limitado em uma situação real de luta, e mesmo que fossem, o quão eficazes seriam contra uma arma letal como uma pistola. A premissa implícita é que não seja tão importante assim, e que as técnicas que praticamos tenham uma aplicação marcial. Consequentemente, por extensão, dizem os defensores desse ponto de vista que não há nada de errado em praticar de uma forma relaxada e agradável.

A maior falha, na minha opinião, sobre essa forma de pensar, é que isso negligencia as consequências danosas de tais práticas em sucessivas gerações de Aikidocas. Se usarmos o Aikidô ensinado por Morihei Ueshiba, em seguida ao fim da guerra, como uma régua pela qual possamos medir a arte atual, nós já podemos concluir que muito menos técnicas são ensinadas hoje e que há pequena ênfase em áreas fundamentais como o atemi; o uso de armas; e a prática de grupos inteiros de técnicas como koshiwaza (técnicas utilizando o quadril) e hanmi handachi (uke em pé e nage ajoelhado) os quais eram parte do curriculum original da arte. Isso sem citar a quase total ignorância da fonte e conteúdo da mensagem espiritual do fundador. Se isso continuar por muito tempo, temo que no futuro o que seja passado com o nome de “Aikidô” em muitos dojôs se torne irreconhecível como tal.

O Aikidô tem uma rica herança como uma das mais importantes e dinâmicas expressões da longa tradição japonesa de artes marciais. Morihei Ueshiba, o fundador do Aikidô, injetou nas complexas e sofisticadas técnicas que aprendeu na sua juventude uma visão humanística das artes marciais como instrumentos de resolução pacífica dos conflitos. É essa mistura única de forma, ética e utilidade, a responsável pelo impacto do Aikidô nas gerações modernas. De uma certa forma, essa visão do fundador talvez tenha sido revolucionária demais. Parece ter sido demasiado esperar que o mundo fizesse o pulo conceitual considerável requerido para transformar as ferramentas da guerra em instrumentos da paz. 

Visto sob essa luz, o estado atual do Aikidô como uma forma leve de exercício a ser buscado em um ambiente amistoso e relaxado, nada mais é que um sinal dos tempos em que vivemos onde o que é mais fácil e divertido atrai mais a atenção do que as atividades que rendem recompensas somente em consequência de um esforço aplicado em prolongados períodos de treino.

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Colaboração:

www.impressione.wordpress.com

Aiki News #86 (1990)

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Escola São Francisco de Assis e Instituto Escola Brasil realizam Poesia Viva

19/11/2009

A Escola Municipal São Francisco de Assis, localizado no bairro de Nazaré, promoveu a Poesia Viva, a IX Mostra Cultural e a II Feira Literária, nos dias 06 e 07 de novembro, no próprio prédio da escola. O evento é incorporado ao calendário cultural da escola desde 2005, confundindo-se com o Projeto Escola Brasil, na medida em que o instituto é quem patrocina o evento.

“A poesia extrapola os muros da escola se tornando um grande evento que, a partir de 2006, é realizado anualmente com a participação de alunos, professores e parceiros do Instituto Escola Brasil”, afirma a diretora Maria da Natividade de Moura Rodrigues. A cada ano há um tema em destaque, em 2006 foi “Catadores de poemas”, o de 2007 “Literatura de cordel – unindo arte e poesia”, o de 2008 “Poesia e arte – reencontro de saberes e sentimentos” e agora, em 2009 “Um jeito bom de brincar: a poesia no dia-a-dia”.

O evento contou com a presença do Secretário Municipal de Educação, Elias Nunes, que ficou encantado com todo o trabalho feito na escola. E afirma, é importante destacar que os investimentos foram feitos em parceria com o Banco Real, e que seu objetivo e meta é buscar mais parceiros para outras escolas, ampliando o projeto, no qual se desenvolve na E.M. Francisco de Assis e na E.M. Bernardo Nascimento.

O reconhecimento desde trabalho ocorreu no dia 23 de outubro de 2009, quando o grupo de voluntariado do Instituto Escola Brasil de Natal, grupo Santander, concorrendo com todos os outros do país, recebeu o Prêmio Destaque de Voluntariado do Projeto Escola Brasil 2009 ao apresentarem o Projeto Poesia Viva desenvolvido na escola.

PROJETO ESCOLA BRASIL

Indivíduos com acesso a boa educação são mais atuantes, capazes de fazer escolhas conscientes que as ajudem a transformar as condições de vida de sua geração e das próximas. Educação de qualidade é imprescindível para superarmos os grandes desafios sociais, ambientais e econômicos do mundo.

O Projeto Escola Brasil – PEB tem o objetivo de contribuir para a melhoria da qualidade na educação oferecida pela escola pública de ensino básico, por meio da participação voluntária de funcionários do Grupo Santander Brasil, de maneira conjunta e integrada com gestores e demais membros da comunidade escolar (professores, funcionários, alunos, pais, entre outros).

As ações que são desenvolvidas no contexto do PEB podem referir-se aos âmbitos da gestão, pedagógico ou da infra-estrutura da escola parceira, nos eixos temáticos de esporte e recreação, arte e cultura, meio ambiente, diversidade e empreendedorismo e geração de renda.

A intenção dessas ações é estimular constantemente o desejo de aprender dos alunos e fortalecer a comunidade escolar. Além de desenvolver a educação do país, uma vez que ela é a base para o desenvolvimento do mesmo”, explica a Coordenadora do Projeto Escola Brasil de Natal, Ednalva Gomes da Silva.

Algumas ações foram implementadas por esse parceiro na escola, como a construção da quadra de esportes, construção da sala de informática, da sala de jogos, do depósito, investimentos em materiais esportivos tais como: tatames, bolas, bambolês, xadrez, kimonos, totós, medalhas, troféus, parte do acervo da sala de leitura, patrocina cursos para professores em outros Estados (promoção da igualdade racial); o lanche das crianças e voluntários do AIKIDÔ todos os sábados; lanches para os pais quando é promovida qualquer atividade que os envolvam, a exemplo disso o curso de empreendedorismo oferecido pelo Sebrae, o tratamento dentário traumático realizado pela UNP em parceria com as unidades de saúde de Nazaré e Bom Pastor; o lanche da aplicação do IQE; festas do dia das crianças, mães, pais, professores, etc.

Podemos contar sempre com essa equipe, a qual não abrirá mão dessa parceria que nos motiva, nos tonifica e nos faz acreditar cada vez mais que é o caminho de dias melhores para futuras gerações”, declara a diretora Maria da Natividade.

Link para o original: http://www.natal.rn.gov.br/noticia/ntc-1821.html

Colaboração: www.natal.rn.gov.br


O Ego e o Aikidô – Por José Ribamar Lopes

22/05/2009

Não cabe manifestação de ego no Aikidô. É seu pré-requisito a intenção de desprendimento ao sentimento egóico. Aikidô é, acima de tudo, arte de iluminação, e a iluminação nunca se dá em benefício de um único ser. Lembremo-nos que Ô-Sensei era extremamente religioso, e este sentimento foi fundamental na formação do Aikidô.

Não há harmonia com a natureza, preso há uma vontade individual. A natureza não tem vontade…ela é. Assim devemos ser no Aikidô, livres e fluidos. Se há vontade não há fluidez, não há harmonia, não há Aikidô, que é o caminho da harmonia pela energia vital.

Levados por sentimentos adquiridos nas atividades esportivas, bem como no nosso meio social competitivo, preocupamo-nos em demonstrar destreza, conquistar graduações, obter destaque… Trabalha contra nossa prática a comparação com os outros, o objetivo de sermos os melhores. A busca da superação deve ser sobre nós mesmos. A melhora obtém-se no aperfeiçoamento, que requer desprendimento e entrega à prática. Portanto, não há entrega se há apego, que são opostos entre si.

No Aikidô há reverências, submissões a regras e posturas, a conduções; há humildade. Se nossa preocupação ainda é com a obtenção da graduação, a exibição da já conquistada, o aprendizado de uma técnica que nos faça bom de briga, talvez devamos tornar a buscar informações sobre a história do fundador, que migrou seus estudos da marcialidade para a espiritualidade, do Jutsu para o Dô. Assim procedendo, talvez compreendamos o significado da arte por você escolhida, e sejamos praticantes mais tranquilos e felizes, entregue as rotações naturais.

Nesse sentido, a lição do fundador:

A Arte da Paz é o remédio para o mundo doente. Há maldade e desordem no mundo porque as pessoas se esqueceram que todas as coisas vieram de uma única força. Voltemos para essa fonte, deixando para trás todo pensamento egoísta, desejos mesquinhos e raiva. Aqueles que não possuem nada possuem tudo“.

Se você não tem nada que o ligue ao verdadeiro desprendimento. Você nunca entenderá A Arte da Paz“.

José Ribamar Lopes – Servidor Público – 2º Kyu (Faixa-Azul) – Aluno da Academia Central de Aikidô de Natal.

Colaboração: http://umditoeumponto.blogspot.com/


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