A graça e leveza do AIKIDO – Por Roberta Macedo Xavier

27/05/2014

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Quando assistimos a um vídeo de Aikido ficamos maravilhados com a beleza e a graça dos movimentos. Podemos imaginar que tudo poderia muito bem ter sido ensaiado, e de certa forma, se não há o lado espiritual e treinamos apenas o corpo, então sim, teremos apenas golpes ensaiados. Certa vez escutei um professor de uma outra arte marcial se referir ao Aikido como “aquele balé”. Trata-se de uma visão superficial e bastante míope de quem não tem conhecimento suficiente para emitir uma opinião, digamos mais justa sobre o assunto.

Sabe-se que O-Sensei era possuidor de uma força extraordinária e de uma técnica que não há o que comentar, entretanto, é de conhecimento público a sua profunda convicção espiritual. Homem de grande fé nas coisas em que acreditava, tinha em muita conta a importância espiritual na sua vida, assim como na de seus alunos. Principalmente os mais próximos, aqueles que tiveram o privilégio de conviver com o cotidiano de O-Sensei, puderam constatar a seriedade com que falava sobre o assunto, não obstante, muitos deles não compreenderem completamente o sentido do que o mestre tentava transmitir.

Gosto do relato de um fato ocorrido com um grupo de alunos veteranos citado no livro Os Segredos do Aikido de John Stevens, quando o fundador os convidou para irem ao dojo no intuito de revelar-lhes os tais segredos do Aikido. Acho interessante a maneira como o autor descreveu a ansiedade dos mesmos em saber como se tornariam invencíveis e capazes de realizar proezas extraordinárias e como ficaram frustrados após escutarem por mais de uma hora sobre temas os mais sutis possíveis, como a necessidade de serenar o espírito e retornar à Fonte.

Então, o que estou querendo dizer é que a leveza e a graça do Aikido não residem essencialmente em como se realiza a técnica e sim no espírito, na vontade de crescer entendendo o sentido espiritual. Não importa o quão forte estejamos empenhados em aprimorar e refinar os movimentos se não estivermos igualmente preocupados em forjar nosso espírito. Se um praticante não aprender a essência do Aikido, as técnicas jamais ganharão vida. (1)

O que significa Ki? É a força que nos move. Espírito também pode ser entendido através do ki. Ki, energia vital, ou a força da vida. As duas coisas se confundem. Daí a sua relevância dentro da técnica. A função do Ki é muito bem explicada no livro de William Gleasom, Aikido e o Poder das Palavras. No nosso corpo é o hara, a fonte do nosso ki e do nosso sangue. É o ponto que dá origem à vida e ao movimento. (2)

O movimento começa com a intenção, com nosso desejo de realizar os golpes ou posturas. Posturas graciosas no yoga são chamados Ásana. Às vezes é útil que o praticante pense nos movimentos do Aikido, não como técnicas de uma arte marcial mortífera, mas como Ásana, posturas físicas que ligam o praticante a verdades mais elevadas. (1)

Para concluir, acredito que deveríamos nos preocupar, antes de qualquer coisa, com a evolução espiritual, pois o refinar da técnica viria como consequência, assim como está escrito na Bíblia, no livro de Mateus, versículo 33 onde se pode ler “Mas buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. (3)

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*Roberta Macedo Xavier – bancária, Shodan (faixa-preta) da Academia Central de Aikido de Natal.

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Referências Bibliográficas:

(1)   John Stevens, OS SEGREDOS DO AIKIDO, editora pensamento, 1995.

(2)   William Gleason, AIKIDO E O PODER DAS PALAVRAS – OS SONS SAGRADOS DO KOTOTAMA, editora Pensamento, 2013.

(3)   Tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, BÍBLIA SAGRADA edição ecumênica da Barsa, 1977.

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Colaboração:

http://www.impressione.wordpress.com

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A senda do AIKIDO – Por Roberta Macedo Xavier

08/05/2014

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Foi em meados do ano de 2005 que fui apresentada ao AIKIDO, através de um colega de trabalho já praticante dessa arte marcial. Convidou-me a conhecer a Academia Central de Aikido de Natal e eu aceitei prontamente, pois tinha curiosidade em saber o que tanto o atraía nela. Mal entrei e senti um clima diferente, o soar dos bambus dos sinos dos ventos levemente era o que se podia ouvir. Aproximei-me, sentei em frente ao tatame e fiquei fascinada com aquela calça-saia preta, que depois descobri chamar-se hakama, quanta elegância! Mas, o que me fez apaixonar à primeira vista foi a postura educada das pessoas que estavam treinando. Ah! Polidez e delicadeza ao ouvir àquele que estava falando, presumi ser o professor. O colega explicou-me que quando o Sensei falava, os alunos se colocavam na posição de seiza (de joelhos), em sinal de respeito para aprender o que lhes era ensinado.

Então, no dia 19 de agosto do mesmo ano, resolvi começar esse grande desafio. Fiz a matrícula e iniciei os treinos. Qual não foi minha surpresa, que logo no primeiro dia, tive grandes e esclarecedores ensinamentos vindos do Sensei James, que me acompanhariam durante toda minha caminhada, não apenas naquele lugar, mas em toda minha vida. A etiqueta no dojô é apenas um vislumbre do que se pode ter quando se observa um treino de AIKIDO. O respeito, a gentileza, o uso do dogi limpo, tudo isso é apenas cortesia, uma pequena parte, atrevo-me a dizer, a mais superficial do AIKIDO.

Explicou-me, o Sensei, que no AIKIDO não existe competição, não necessitamos vencer o outro para nos sentirmos melhores, entretanto não precisamos fugir de algo que se coloca em nossa frente e vem em nossa direção. Um grande ponto de interrogação se formou em minha cabeça, como assim? Não precisei externar minhas conjeturas, o Sensei calmamente continuou. Através de um ataque shomen uchi com a finalização irimi nage, Sensei James foi explicando. Perceba, quando alguém tem um ponto de vista diferente do seu, talvez queira confrontá-la, ou convencê-la de que está certa e talvez de uma maneira que você não espera, golpeando-a frontalmente. Devemos estar preparados para isso. Entrando levemente na diagonal, apenas para sairmos da linha de ataque, desviando, porém, sem fugir do que nos foi proposto, nos colocamos de forma a ficar ao lado dessa pessoa. Dando um passo e um giro, irimi tenkan, ficamos juntos do suposto agressor, então somos capazes de ver o que essa pessoa estava vendo ao tomar essa decisão, o ponto de vista dela, a realidade dela. Mais do que isso, devemos nos preocupar com o bem estar dessa pessoa, conduzindo-a de uma forma a preservar a sua integridade física, redirecionado a energia gerada no ataque para um caminho inesperado para a pessoa que desferiu o golpe. Talvez também não seja o que você gostaria, mas uma terceira opção, o da harmonia.

Use o espírito para forjar o corpo físico. Use o seu Ki para superar todos os obstáculos que lhe confrontarem e nunca evite um desafio. Não tente controlar ou restringir seu oponente de modo não natural. (1) Exatamente o que me ensinou Sensei James naquele dia.

Sim, acredito que não devemos tentar mudar o outro, mas se desejamos o caminho da harmonia, devemos também estar abertos a aprimorar nosso espírito. A tentar enxergar o que o outro vê, a se colocar no lugar dele e tentar entender o que o levou a tomar certa atitude. Qualquer caminho a ser trilhado estará repleto de desafios e dificuldades a serem superados, independente de religião, profissão ou seja lá o que escolhermos realizar em nossas vidas. O que faz a diferença é a disposição de querermos vencer, não no sentido de derrotar, mas de construir algo melhor, para todos.

O treinamento em AIKIDO não visa tornar alguém fisicamente forte ou torná-lo habilidoso no combate; seu propósito é reunir pacificamente todas as pessoas do mundo, melhorar as coisas pouco a pouco, ficar centrado e em sintonia com o universo. O AIKIDO é uma bússola que nos aponta a direção correta, e assim cada um de nós pode realizar a sua missão na terra. AIKIDO é o caminho da harmonia. AIKIDO é a senda do amor. (1)

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Referência Bibliográfica:

 1.Morihei Ueshiba; ENSINAMENTOS SECRETOS DO AIKIDO, editora Cultrix, SP, 2010.

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*Roberta Macedo Xavier – Bancária, Shodan (faixa-preta 1º Dan), aluna da Academia Central de Aikidô de Natal.

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Colaboração:

www.impressione.wordpress.com

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IRIMI NAGE E A RESOLUÇÃO DE CONFLITOS – Por Marcio Henrique Yacyszyn Rodrigues

03/02/2014

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Em meus primeiros contatos com o Aikido, principalmente através dos filmes de Steven Seagal, a técnica que mais me chamava atenção era o irimi nage (a qual só soube a denominação muitos anos depois). A maneira como o braço ia de encontro ao pescoço do oponente, a forma de projeção ao chão, a aparente efetividade marcial, eram pontos que me encantavam nesta técnica e me entusiasmavam a aprendê-la.

Muitos anos depois, quando iniciei meus estudos como aluno na Academia Central de Natal, ainda me entusiasmava pela questão “incisiva” da técnica. Agora também animado não apenas pela sua aplicação, como também pela graça na forma de recebê-la, quando os ukes caiam em yoko ukemi ou em variações de ushiro hanten.

Firmeza, força, forma, poderio de efetividade, coisas deste tipo me atraiam na técnica. Eu nem imaginava como a minha visão estava mais do que limitada. Ela estava completamente errada, sobre o irimi nage. Eu não sabia nada sobre a técnica e quanto mais me voltava a estes aspectos, mais me impossibilitava de aprendê-la de verdade.

Após alguns anos de treino, modificando minha visão não apenas sobre o Aikido, mas também sobre diversos aspectos da vida, comecei a ter uma pequena compreensão sobre a realidade desta técnica. Estudos e formas de ver a técnica de maneira mais branda, conduzindo o uke e não contundindo o mesmo, me levaram a começar a ver que a harmonia do Aikido é muito mais interessante de ser aplicada, do que a simples intenção de ser incisivo e “forte”.

Se na prática do Aikido sempre buscamos nos harmonizar com o universo e, obviamente, com o uke, o emprego das técnicas de forma contundente está totalmente em desacordo com a filosofia da arte. A aproximação do uke, seja com um atemi waza, seja com um katame waza, não necessariamente precisa ser entendido como uma tentativa de agressão, mas como um ponto de vista diferente do seu.

Em vários momentos da minha vida, não apenas na prática das artes marciais, mas também na vida profissional e pessoal, eu compreendi que conflitos, principalmente de opiniões, podem ser resolvidos quando ambas as partes estão dispostas a olhar pelo ponto de vista do outro, a compreender o ponto de vista do outro, para que então possa apresentar o seu ponto de vista. É lógico que como alguém que está ainda iniciando seu estudo no Aikido, eu teria grandes dificuldades para compreender, sozinho, esta questão aplicada às técnicas isoladas.

Estudando o irimi nage nos treinos mais recentes, tendo a técnica sido apresentada de uma maneira um pouco diferenciada, sem interferir no braço do uke que se aproxima, buscando um posicionamento não apenas nas costas do uke, mas também olhar para a onde ele está olhando, para que só então eu possa completar o movimento conduzindo ele a olhar para onde eu estava olhando. Começo a compreender que ele nada mais é do que, olhar o conflito sob a ótica de quem me confronta e mostrar a ele o meu ponto de vista, para que só então possamos chegar a um entendimento.

Ao olhar na direção que o uke está olhando, somos capazes de enxergar e até mesmo compreender o seu ponto de vista. Mas a boa resolução de um conflito passa pelo ponto em que ambas as partes compreendam o ponto de vista do outro. Ainda falta que o uke compreenda o seu ponto de vista e cabe ao nage apresentar este ponto, conduzir o uke a enxergá-lo. Mas esta condução não precisa ser violenta, ou contundente, ela pode ser feita de maneira harmônica, suave e, até mesmo, gentil. Lembrando palavras de O Sensei:

Assim que a

Cobra Demônio

Ataca

Eu já estou atrás dela

Guiando-a com amor

(Ensinamentos secretos de Aikido, 2010)

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Vejo como uma referência exata ao conceito aplicado aqui. Mas que não pode ser limitado apenas ao irimi nage, muito menos ao Aikido, existe a necessidade de observarmos muito mais do nosso dia-a-dia sob essa maneira de resolver casos conflituosos. Outras técnicas, outras artes, outras situações. Nem sempre será possível aplicá-la de forma tão direta como posta aqui, mas a intenção, a maneira de enxergar a situação, essa sim poderá ser sempre aplicada.

É interessante como uma técnica que é repetida com grande frequência, quando praticada de um modo diferente, pode nos mostrar que o conhecimento sempre esteve presente e claro, nós apenas não estávamos prestando a devida atenção a ele. Em estudos mais abrangentes, encontrei algumas referências que podem ser analisadas sob esta mesma intenção.

Richard Moon, em seu livro Aikido em três lições simples (2006), fala sobre duas questões que se mostram bem aplicadas ao assunto que se trata aqui. Ao tratar sobre o item Fora da linha de choque ele diz: Fique fora da linha de choque. Não deixe que a interação com outra pessoa se torne uma questão pessoal. Opte por aceitá-la e compreender seu significado como uma expressão do modo como ela se sente. Se não tomar a reação do outro como uma afronta, você ficará livre para iniciar um diálogo genuíno. Que ainda pode ser completado pelo que é dito logo após em O poder do questionamento: Não se oponha aos seus sentimentos ou aos sentimentos das outras pessoas. Investigue as origens desses sentimentos e procure por uma mensagem, um senso de orientação.

Assim como essas citações, encontramos várias outras que refletem a intenção da boa resolução de conflitos. De Sun Tzu à Confúcio, de textos sobre Aikido à textos sobre Karate. A orientação sempre esteve presente, mas muitas vezes precisamos de uma aplicação prática, uma técnica, por exemplo, para que a compreensão aconteça de maneira real. Para que possamos identificar que o sentido daquelas palavras pode ser aplicado em nossa vida.

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*Marcio Henrique é arquiteto, professor universitário e Shodan (faixa-preta 1º Dan) formado pela Academia Central de Aikidô de Natal.

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Colaboração:

http://www.aikidorn.com.br

http://www.impressione.wordpress.com

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