Sobre treinar Aikidô – Por Kisshomaru Ueshiba

22/09/2015

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Eu acho que é uma coisa positiva estudar o Aikido ou tomar a decisão de estudar o Aikido e continuar a praticá-lo, quer seja porque você ache que ele é algo maravilhoso, ou porque você o considere algo que se encaixa perfeitamente às suas necessidades. E eu acredito que seja apropriado e necessário praticar o Aikido tendo bem em mente a sua origem. Atualmente, contudo, você frequentemente encontra pessoas que desistiram, após experimentarem o Aikido por um curto período de tempo. Eles não têm qualquer noção do que é o Aikido.

Se as pessoas acham que o Aikido consiste somente em mexer os braços e as pernas e se o que se desenvolve, a partir daí, é algo que lembra, de uma maneira vaga, o Aikido original, teremos algo para nos lamentar profundamente. Isto ofenderia a essência do Aikido. Portanto, é importante conhecer as dificuldades que Morihei Ueshiba teve de enfrentar para criar esta arte.

É evidente que o aspecto físico do Aikido é importante. Contudo, o principal não é simplesmente mover os seus braços e suas pernas. Mais do que isso, é uma questão de espírito, uma questão de coração. Se este treinamento espiritual não é expresso nos movimentos do corpo, então tudo que se faz não corresponderá à verdade. É errado imaginar que você está praticando Aikido porque você pode arremessar o seu oponente e subjugá-lo, ou porque a sua técnica é forte. Por exemplo, no Judo e no Karate existem pessoas fortes, assim como no Sumo. No Aikido, existem pessoas fortes também. Contudo, o verdadeiro Aiki não consiste somente em ter um corpo forte, não é somente força muscular. É a unificação da mente e do corpo. Se não for cultivado um espírito que permaneça sereno, não importe qual seja a dificuldade ou situação, uma pessoa não poderá ser classificada como forte. Logo, se uma pessoa pratica o Aikido entendendo como O-Sensei criou o seu caminho, a partir de seu ponto de vista a respeito de humanidade ou mesmo da vida, ela não se enganará em relação ao verdadeiro caminho do Aikido.

*Entrevista que aconteceu em 30 de maio de 1978, em Shinjuku, Tokyo, na residência do Doshu Kisshomaru Ueshiba a Stanley Pranin (editor do Aiki News) e Midori Yamamoto (intérprete).

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“Budô” revolucionou a nossa compreensão na criação do Aikido moderno – Por Stanley Pranin

04/03/2015

“Budo”, escritos de Morihei Ueshiba de 1938, é um dos documentos históricos mais importantes sobre a evolução das técnicas de aikido, e é de grande relevância para os estudantes contemporâneos de aikido. Estamos em débito com o Fundador e com Morihiro Saito Sensei por ter criado esse recurso maravilhoso.

Do ponto de vista técnico, “Budo” oferece inúmeros insights sobre a arte marcial de Morihei Ueshiba referente ao período pré-guerra. Ele fornece uma visão das técnicas que Ueshiba considerava como sendo conceitos básicos e a maneira que elas foram executadas em meados dos anos 30. As descrições técnicas oferecidas são sucintas e altamente instrutiva. Como “Budo” foi publicado em 1938, as técnicas cobertas por ele representam uma fase de transição entre o Daito-ryu aikijujutsu que Ueshiba aprendeu com Sokaku Takeda e o aikido moderno. Várias técnicas básicas cobertas no manual – por exemplo, ikkyo, iriminage e shihonage – já tinham uma estreita semelhança com as ensinadas pelo Fundador no período do pós-guerra em Iwama.

Surpreendente, para alguns, será o grande número de técnicas incluídas no “Budo” que são executadas com armas. Um terço do livro apresenta técnicas executadas usando a faca, a espada, a lança e a mock-baioneta. Há uma série de influências identificáveis ​​que se relacionam com a inclusão dessas técnicas de armas. Uma delas é o fato de que, nesta época, Ueshiba foi experimentando as técnicas de espada da escola Kashima Shinto-ryu.

O manual inclui vários movimentos de suburi derivados de práticas (kumitachi) Kashima. Ueshiba, em conjunto com Zenzaburo Akazawa, frequentaram formalmente esta tradição clássica de 500 anos de idade, em Kashima, na prefeitura de Ibaraki em 1937. Apesar de Ueshiba nunca ter realmente praticado no dojo Kashima, instrutores da escola vistavam o dojo de Ueshiba uma vez por semana, por cerca de um ano, para ensinar a alguns alunos, incluindo Akazawa e o filho de Ueshiba, Kisshomaru. Ueshiba observava profundamente estas sessões especiais de formação e, em seguida, praticava por conta própria com seus alunos, tais como seu filho e Akazawa, que haviam tido aulas com os professores do Kashima. Ueshiba iria continuar a sua experimentação com essas artes de espada até por volta 1955. Estas formas iniciais foram as raízes das técnicas de aikiken que foram posteriormente sistematizados em suas formas atuais por Morihiro Saito em Iwama.

Referente à inclusão das técnicas de baioneta, sem dúvida, refletiram o fato de que Ueshiba foi contemporâneo no ensino destas em várias instituições militares, incluindo a Escola Toyama do Exército, onde o príncipe Kaya mais tarde serviu como superintendente. Tais práticas de baioneta eram do treinamento de infantaria do exército japonês até a Segunda Guerra Mundial. Quando jovem, o próprio Ueshiba praticava intensamente as formas de baioneta durante seu treinamento militar como soldado durante a Guerra Russo-Japonesa.

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SOKAKU TAKEDA e MORIHEI UESHIBA – Por Kisshomaru Ueshiba

26/02/2015

Sokaku Takeda está registrado na história do budo moderno como o transmissor do Daito-ryu Jujutsu. Ele era uma pessoa inspiradora com uma aparência formidável e, embora tivesse cerca de 2 centímetros a menos que o O-Sensei, ele sempre parecia olhar para baixo, e para as coisas, com um olhar misteriosamente penetrante, acompanhado por uma carranca de boca fechada devido à sua falta dos dentes da frente. Diz-se que Onisaburo Deguchi, que tinha a reputação de ser capaz de dizer a sorte das pessoas, uma vez disse a Takeda que mesmo que ele tivesse dominado um “Caminho”, ele era um homem com o cheiro de sangue e um destino infeliz. Mestre Deguchi muitas vezes se perguntou por que Ueshiba era tão subserviente à Takeda, e essa atitude foi um ponto de irritação para o líder religioso. Mas Ueshiba foi sempre fiel à etiqueta e era grato ao seu professor, para quem ele sempre tentou atender às demandas.

Foi em fevereiro de 1915, enquanto visitava Engaru em Kitami que O-Sensei conheceu Takeda. Ambos foram se hospedar no mesmo hotel e eles se encontraram nos corredores da pousada. Ueshiba, que na época tinha cerca de 30 anos, estudou com ele na estalagem por um mês, mas enquanto ele estava sendo ensinado ele sentiu algum tipo de inspiração, que espiritualmente ele não entendeu muito bem, então ele convidou Takeda para ir com ele à área de Shirataki onde cerca de 15 de deshi e servos de Ueshiba receberiam as instruções de Takeda no Daito-ryu. Mais tarde, quando perguntado a ele se enquanto estudava o Daito-ryu lhe havia vindo a inspíração para o Aikido, O-Sensei balançou a cabeça, “- Não”, e disse: “- Eu diria que a Takeda Sensei abriu meus olhos para budo”.

Quando se conheceram, Sokaku apresentou-se dizendo: “- Eu sou Sokaku Takeda.” O-Sensei reconheceu o nome, porque antes ele havia lutado e derrotado um enorme lutador de sumô de Kitami Ridge, e naquela época ele tinha sido perguntado se ele era Takeda. De acordo com o Sumo Ozeki (o segundo mais alto posto em Sumo) a quem ele havia derrotado, Takeda era um homem do budo, de classificação samurai, que tinha vindo para Hokkaido a convite de um de seus alunos. Foi esse incidente que tinha familiarizado O-Sensei com o nome de Takeda.

Este foi o início da ligação longa e decisiva entre os dois homens. Após a reunião, Takeda convidou Morihei para o quarto dele, onde eles conversaram a noite toda. Foi então que Morihei percebeu o grande conhecimento do budo possuído por este personagem formidável. Quando Ueshiba pediu para ser instruído em Daito-ryu jujutsu, algo completamente novo para ele, Takeda imediatamente o convidou para permanecer na estalagem. Parece que ele percebeu que Ueshiba tinha treinado duro e tinha um grande potencial.

O-Sensei ficou muito impressionado com as técnicas secretas de Daito-ryu que ele viu pela primeira vez durante esse mês de sessões de treinamento intensivo de um dia inteiro. Mais tarde, ele recebeu um pergaminho de transmissão que listou 188 técnicas gerais, 30 técnicas de aiki, e 36 ensinamentos secretos. Ele estava bastante surpreso com o enorme número de variações que tinha sido dado a ele.

As técnicas de Daito-ryu foram mais práticas do que as do Jujutsu que ele havia aprendido até aquele momento, e a eficácia violenta das técnicas de bloqueio bem como os ataques aos pontos vitais (atemi) eram algo novo para ele. Embora Morihei fosse fisicamente mais forte do que Takeda, ele era impotente em face de controle técnico do seu professor. Morihei tornou-se profundamente absorvido em pesquisar essas técnicas secretas, mas depois de cerca de um mês ele retornou à Shirataki.

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Mestre Sokaku Takeda e o Daito-ryu. 

Daito-ryu jujutsu é uma arte marcial tradicional do clã Takeda. O fundador foi Shinra Saburo Yoshimitsu a partir da linha Seiwa Genji (um ramo principal do clã Minamoto). O nome do sistema pode ter sido tirado da “Mansão Daito” em Shiga, onde o treinamento acontecia. A tradição foi transmitida na família Kai Takeda e quando Lord Takeda Tosa Kunitsugu foi nomeado para ser o senhor de “Aizu Han”, foi ele quem trouxe para Aizu. As técnicas mantiveram-se secretas nesse domínio até o final do período feudal em 1860. Sokaku tinha sido destaque em artes marciais quando jovem e foi chamado de gênio com a espada. Uma história conta que Takeda matou muitos desafiantes, e ele iria se vangloriar disso a Ueshiba. Parece no entanto, que depois de um tempo definiu que a espada seria absorvida na tradição Daito-ryu Jujutsu. Em 1898, ele recebeu a licença de um mestre nas técnicas secretas. Isto foi como Takeda tornou-se um transmissor (em japonês, literalmente, um “fundador do meio”) da tradição Daito. Depois disso, ele viajou para vários lugares para ensinar e difundir o Daito-ryu e, eventualmente, fez o seu caminho para Hokkaido.

Durante os anos O-Sensei tratou Takeda com muita humildade e educadamente, e fez o seu melhor para serví-lo até sua morte em 1943. Durante muito tempo Takeda viveu e ensinou na área de Shirataki, Morihei cuidou dele completamente sozinho e apesar do fato de que ele estava em uma posição de grande respeito na comunidade, ele voluntariou-se fazendo trabalhos humildes fora de suas atribuições. Era a crença de O-Sensei que a devoção total ao seu professor era simplesmente a etiqueta correta ou esperada, uma vez que tinha recebido instruções dele. Em referência ao acontecido, o segundo Dosshu Kisshomaru disse: “- Não consigo pensar em ninguém que realizou o decoro e a etiqueta em grau mais elevado do que ele (O-Sensei). É por isso que o fundador foi capaz de desenvolver a capacidade de impor respeito como o próprio professor “.

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Morihei Ueshiba (1883-1969) – 45 anos da passagem do Fundador do Aikidô

25/04/2014

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Amanha, 26/04/2014, fará exatos 45 anos da morte do Fundador do Aikidô, Morihei Ueshiba, conhecido pelos Aikidocas ao redor do mundo como Ô –Sensei – Grande Mestre.

Os últimos anos de Morihei Ueshiba foram passados principalmente em Tóquio à medida que a sua saúde se tornava gradualmente mais frágil em virtude de sua idade já avançada, 86 anos. Não obstante, continuou ensinando até março de 1969, altura em que adoeceu, devido a complicações no fígado, e foi internado no hospital da Universidade de Keio. Na ocasião Morihei disse a seu filho Kisshomaru: “Deus está me chamando”.

Uma das últimas aparições do Ô-Sensei deu-se no dia 15 de abril de 1969, Morihei participou das comemorações do ano novo no Hombu Dojô. Mesmo parecendo estar com a saúde impecável, sua condição física deteriorava-se rapidamente e devido a tal quadro seus numerosos discípulos e amigos fizeram suas últimas visitas e homenagens. Mesmo já no final de sua existência neste plano Ô-Sensei propagava os ideais do Aikidô, e dizia aos presentes: “O Aikidô é para todos…” dizia o Mestre, “não treinem por razões egoístas, mas para todas as pessoas em todos os lugares”.

No dia 26 de abril de 1969, Morihei Ueshiba, aos 86 anos de idade, tomou a mão de seu filho Kisshomaru, riu e disse: “Tome conta de tudo”, e desencarnou.

Uma vigília foi realizada no Hombu Dojô no dia 1º de maio de 1969, a partir das 19h e, no mesmo dia, foi consagrada ao Fundador do Aikidô uma condecoração póstuma pelo Imperador Hirohito. Suas cinzas foram depositadas no cemitério de Tannabe, no templo da família Ueshiba, e mechas de seu cabelo foram guardadas em relicários no Santuário Aiki, em Iwama; no cemitério da família Ueshiba, em Ayabe; e no Grande Santuário de Kumano. Kisshomaru Ueshiba foi eleito para suceder seu pai como Aiki Doshu, por decisão unânime da Aikikai, em 14 de junho de 1970.

O Budô não é um meio de se derrotar um oponente pela força ou com armas letais. Também não é seu propósito levar o mundo à destruição pelas armas ou por outros meios ilegítimos.O verdadeiro Budô busca ordenar a energia intrínseca do Universo, protegendo a paz mundial, moldando e também preservando tudo na natureza em sua forma correta. Praticar o Budô é essencial para fortalecer, em meu corpo e em minha alma, o amor do kami, a divindade que gera, preserva e nutre todas as coisas na natureza” – Morihei Ueshiba.

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Conheça o Aikidô

Local: Academia Central de Aikidô de Natal – ACAN

Endereço: Rua Prof. João Ferreira de Melo – Capim Macio – Natal/RN –  Fundos do CCAB Sul

Telefone: (84) 2020-4841

Site: www.aikidorn.com.br

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AIKIDO PARA O DIA-A-DIA – Por Daniel Nicolau de Vasconcelos Pinheiro

17/02/2014

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Nas primeiras aulas de Aikido, recebemos várias explicações básicas sobre o funcionamento dos treinos, técnicas, etiqueta no tatame, entre outras. É natural que, ao longo da permanência do aluno nos treinos, a curiosidade comece a aumentar e que passemos a ler sobre aquilo que aplicamos nas práticas. Sensei fala – Aikido é para o dia-a-dia, exercício para o corpo e disciplina para a mente. Esta frase parece mais um simples jargão clichê que poderia ser aplicado a todas as formas de se exercitar ou mesmo outras artes marciais, mas nos parece que esta máxima é um pouco mais profunda na bela arte do “caminho para a harmonização das energias”.

Para sustentar esta afirmativa lembramos que, dentre muitos princípios que doutrinam a arte aikidoca, há um que nos dias de hoje nos parece um dos mais importantes, inclusive para o aprendizado e desenvolvimento dos outros princípios. Este é chamado Missogui, que significa: “a prática para remover a poluição (Kegare) do corpo, da mente e do espírito (…). Missogui é o primeiro conceito do Xintoísmo esotérico. É o Missogui aquilo que cria espaço dentro do indivíduo para que ele possa entrar em conexão (Mussubi) com o mundo divino.[1]

Abrir espaço para algo dentro de nós nos dias hoje é tarefa muito difícil, principalmente na sociedade ocidental, cada vez mais capitalista, consumista e desumana. E é neste ponto onde encontramos o maior presente que a prática do Aikido oferece. Um bom sensei irá levar o aluno à pratica do missogui no tatame mesmo sem que ele perceba. No entanto, quando o fazemos de forma consciente ele é muito mais proveitoso e eficiente. “Aikido é o exercício de estarmos sendo ensinados pelos Kamisama (divindade), sobre as vibrações da criação universal (tamashii)”.[2] É preciso estar aberto a estes ensinamentos para recebê-los em sua plenitude.

Para entrarmos no estado onde possamos nos harmonizar com a energia universal e ao aprendizado do Aikido, precisamos nos abrir e sermos propensos a receber. É aí que começa o exercício interno verdadeiro.

A prática do Missogui pode ser realizada de diferentes formas e ao longo de todo o dia. Algumas formas são mais ritualísticas, ligadas à religião e outras mais mundanas. Neste texto, não entraremos em detalhes sobre a ritualística Xintô, pois o nosso objetivo é justamente dar uma pincelada no que a segunda prática pode gerar de benefícios ao praticante de Aikido.

A etiqueta cobrada dentro do tatame e a presença do sensei, já nos convidam a doutrinar a mente para fazer uma pausa no nosso dia e descansar das preocupações. A “ritualística” da aula, o respeito pelas explicações e o treino do que é ensinado buscando imitar os movimentos da forma demonstrada nos leva a um estado de concentração que começa a limpar nossa mente de outros pensamentos, problemas, preocupações, etc.. A concentração “forçada” nas técnicas de queda, principalmente quando estamos como Uke, leva a aflorar nosso instinto de autopreservação que acaba por ajudar a retirar de nossa mente pensamentos ruins. Então o Missogui acontece. Começamos a retirar de nós tensões, asperezas e preocupações e, ao fim de um bom treino, começamos a ver tudo de forma diferente, com a mente mais tranquila e o corpo mais relaxado. Somos até capazes de julgar melhor os motivos de nossas apreensões e tomar decisões mais centradas.

Qual a mágica? Não há mágica, há perseverança, disciplina, disposição para o aprendizado e consideração mútua. Para que ocorra uma aula proveitosa que nos permita praticar o Missogui, é preciso que estejamos dispostos a ceder e a se por no lugar do outro enquanto nage, respeitando as condições físicas e mentais dos nossos colegas de treino. É necessário também que quando Uke, estejamos prontos para sermos flexíveis e perceber a condução do nage, condução esta que pode ser encarada como uma analogia para as formas que a vida nos apresenta as mais variadas situações.

De nada servem as correções e as explicações individuais se não houver espaço mental e humildade para recebê-las. A limpeza interna abre espaço para o aprendizado e para os bons sentimentos de todos aqueles que partilham o dojo conosco. Devemos nos sentir gratos pelas oportunidades e por toda a doação que encontramos no sensei e nos colegas de treino.[3]

Concluindo esta exposição, lembro a frase de Kisshomaru Ueshiba parafraseando o Fundador, “a ressonância do corpo deriva da unidade mente-corpo que se harmoniza com a ressonância do universo”[4]. Para que esta ressonância seja positiva e possamos nos beneficiar dela, precisamos estar no estado adequado para dar e receber. O Missogui é uma prática que nos leva a purificar-nos e abrirmos espaço para aprender a receber, sabendo conscientemente o que e como. E para nós, este é um grande diferencial da prática do Aikido das demais atividades físicas e artes marciais e um grande exercício para toda vida.

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*Daniel Nicolau é Arquiteto, Servidor Público e faixa-preta 1º Dan (Shodan) da Academia Central de Aikidô de Natal.

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Referências:

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[1] BULL, Wagner José. Aikido-caminho da sabedoria. A Teoria.Editora Pensamento, São Paulo. Pg 181 e 182.

[2] Idem

[3] SUNADOMARI, Kanshu. A iluminação através do Aikido. Ed. Pensamento. São Paulo 2006. Pg. 107 a 109.

[4] UESHIBA, Kisshomaru. O espírito do aikido. Ed. Cultrix. São Paulo, 1984.

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O Aikido de Morihei Ueshiba – Por Stanley Pranin

28/10/2013

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Uma das coisas que percebi cedo na minha carreira de pesquisador das origens do aikido é o fato de que poucos professores de aikido da atualidade têm consciência de certos dados específicos da arte do Fundador. Mais que Morihei Ueshiba, os pioneiros do aikido do pós-guerra eram pessoas como Kenji Tomiki, Gozo Shioda, Kisshomaru Ueshiba, Koichi Tohei, Morihiro Saito, Seigo Yamaguchi, Michio Hikitsuchi e outras, que foram as figuras principais que deixaram a impressão mais forte na forma como a arte é praticada atualmente.

A metodologia de ensino de Morihei Ueshiba, que estava fora de sincronia com a sociedade japonesa do pós-guerra, sua forte orientação religiosa, suas frequentes viagens e seus horários irregulares, tornaram difícil para a maioria de seus alunos receberem instruções profundas do Fundador. A isso se soma o fato de que o aikido se desenvolveu e se espalhou pelo Japão durante uma era de paz e posteriormente floresceu em um período de uma prosperidade econômica sem precedentes.

Em tal enquadramento social afastado do constante espectro da Guerra e da sensação de perigo físico, o treinamento do aikido em um período de paz não tinha a intensidade e o foco dos tempos de insegurança da era anterior à guerra. Além disso, a prática do judo e do kendo se espalhou antes da Guerra e era ensinada em escolas. Isso significa que aqueles alunos que aprenderam com O-Sensei no período anterior à Guerra tinham um nível preparação física e mental muito maior ao iniciarem seu treinamento se comparados aos alunos que vieram depois da guerra.

Certamente, existiram alguns técnicos excelentes e professores inspiradores durante os anos iniciais de crescimento do aikido a partir da década de 1950. Também havia alguns que falavam da dimensão moral do aikido e de seu papel como veiculo para o aperfeiçoamento dos indivíduos e da sociedade. Mesmo assim, a alta percepção, a agudeza e a absoluta exuberância apresentadas pelo Fundador ao demonstrar sua arte dificilmente poderiam ser vistos em qualquer lugar.

Da mesma forma, a perspectiva religiosa do Fundador e sua visão de si mesmo como um instrumento do “kami”, cujo propósito seria trazer a paz e a igualdade na terra, é uma visão muito grandiosa para a maioria dos professores de aikido, que veem a si mesmos principalmente como pessoas que oferecem treinamento em autodefesa e exercícios para o público.

Ninguém duvida de que não existe um substituto para longos anos de treinamento dedicado, e o Fundador é o exemplo máximo. Mas, além disso, quais são as características especiais da arte de O-Sensei que o separam das gerações de estudantes que seguiram seus passos?

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Budô e o Ciclo da Repetitividade – Por Paulo de Carvalho Junior

28/08/2013

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Quando começamos no Budô tudo é festa, nos encantamos com a beleza das técnicas funcionando e com a magia disso acontecendo através de nossas mãos. Cada novo ensinamento abre as cortinas de um mundo novo de realizações e possibilidades e, então, nos sentimos fortes. Descobrimos que temos potencialidades que antes não éramos capazes de reconhecer e isso nos excita.

Com o tempo, conforme o treinamento começa a representar algo rotineiro em nossas vidas, o “brinquedo novo” vai perdendo o brilho e logo parece que estamos nos dispondo a mais um ato de automatismo, como ir à escola ou frequentar a missa. É costumeiro, só isso. Quando isto acontece, parece que o Budô já não tem mais aquilo tudo que enxergávamos anteriormente e a tendência natural é deixarmos o empenho nos treinamentos de lado. É justamente aí que aparece o maior contraste entre o raciocínio oriental e o ocidental.

No ocidente, os fatores aparecem como “ondas“, as quais têm de início um grande impacto, mas logo perdem a força e o efeito parece recuar. Talvez seja por isso que tantos se iniciam na prática de alguma arte marcial e logo acabam parando, na maioria das vezes logo nas primeiras faixas. O fato é que tão logo isso aconteça aparece uma nova onda, que pode se manifestar na forma do intuito de aprender a tocar algum instrumento musical ou dançar, compromissos estes que também logo serão abandonados, a menos que a pessoa se disponha a compreender o que há do lado de lá da cortina. Que cortina? – poderia você se questionar. A esta pergunta um oriental normalmente responderia: a cortina da ilusão. Isso porque é justamente o que vai embora quando os primeiros ajustes de excitação de dispersam – a ilusão. O que está se desfazendo, na verdade, é a nossa visão premeditada da coisa; aquilo que imaginávamos que era depois de nosso primeiro contato. E o que resta então? Bem, o que resta é o verdadeiro valor da arte: o , ou caminho. E como todo caminho que vale à pena é longo, o que aparece diante de nossos olhos quando a ilusão se dissipa é uma grande obra a se realizar, porém, PASSO POR PASSO. É justamente aí que muita gente desiste e o irônico é que isto acontece a despeito do que de fato deveria estar sendo enxergado, isto é, “um caminho que de fato vale à pena provavelmente não tem um destino visível a olhos nus“.

É preciso enxergar com os olhos da alma… Quando vemos grandes mestres manifestando seu Aikidô, ficamos logo maravilhados com a beleza de seus movimentos. Porém, para o praticamente mais avançado a curiosidade certamente vai além: como será que este mestre come? Como se porta diante dos imprevistos? O que faz ele em suas horas vagas? Em outras palavras, a curiosidade que fica para os “iniciados” é a seguinte: o que o Aikidô trouxe de realmente valioso para a vida deste homem? Sim, porque uma arte jamais poderia se deter nos valores efêmeros da beleza plástica de movimentos bem executados. Se assim fosse, Balett poderia ser considerado uma via espiritual. Tem que haver um algo mais, uma chama que mova a intenção de praticar, MESMO DIANTE DE TREINAMENTOS EM QUE AS REPETIÇÕES SE DÊEM DE FORMA PRATICAMENTE INFINITA.

Quando praticamos uma técnica milhares de vezes, o fazemos para enxergar além dela. Interiorizando-a, podemos desocupar nossas mentes do movimento para então dar espaço para um outro nível de compreensão. É então que a verdade suprema das artes marciais se manifesta, provando que o trabalho todo está em sentir e não em simplesmente racionalizar o que está sendo feito. De fato, quando nos tornamos capazes de “sentir” um movimento ao invés de simplesmente executá-lo, que movimento é este já não importa mais. Repetir uma, cem ou mil vezes já não faz mais diferença, justamente porque o prazer da prática passa a se concentrar no durante, no ato de fazer em si, e não mais no que fazer aquilo possa representar.

Moral da história: competência (técnica, espiritual, etc.) é algo que se desenvolve de dentro para fora – nunca ao contrário.

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