A importância do treinamento – Por Kisshomaru Ueshiba

01/08/2012

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A única maneira de apreender o significado do Aikidô e de obter algum benefício, palpável ou não, é praticar realmente a arte. A maioria dos praticantes passou por um processo assim: começam com dúvidas e perguntas, são iniciados na prática e gradualmente se familiarizam com o método e a forma do Aikidô. Mais tarde, sentem sua irresistível atração, e por fim, obtêm certa compreensão de sua profundidade imensurável. Quem tenha percorrido este ciclo terá aprendido várias coisas sobre o Aikidô que o tornam uma arte marcial singular.

Em primeiro lugar, a pessoa se surpreenderá. Diferentemente da aparência suave vista nas demonstrações públicas, o Aikidô pode ser realmente duro, vigoroso e dinâmico, com chaves de pulso fortes e golpes diretos (atemi). A despeito do que poderia supor, o Aikidô dispõe de várias técnicas devastadoras, especialmente as destinadas a desarmar e a dominar o inimigo.

Em seguida, ela ficará chocada ao descobrir o quanto é complicado e difícil, mesmo no nível de principiante, executar as técnicas e movimentos básicos, tais como as quedas (ukemi), o distanciamento adequado (ma-ai), a entrada (irimi), e outros movimentos de corpo (tai sabaki). O fato é que o corpo todo, não apenas os braços e as pernas devem mover-se com rapidez, vigor e potência. É necessário um grau extraordinário de concentração mental e de agilidade, de equilíbrio e de reflexos para atuar com suavidade e rapidez.

Perceberá também a importância do controle da respiração, que inclui não somente a respiração normal, mas algo mais que se conecta com a energia Ki. Este domínio do poder de pulsação é a base para a execução de qualquer movimento e garante a continuidade do fluxo dos movimentos. Além disso, está intimamente relacionado com a filosofia do Budô desenvolvida por mestre Ueshiba, como veremos adiante.

Por fim, à medida que o aluno avança, ficará admirado com o incontável número de técnicas, com suas variações e aplicações, toda caracterizadas pela racionalidade e economia. Só depois de experimentar a complexidade dos movimentos do Aikidô é que ele terá condições de apreciar o valor central do ki, tanto o individual como o universal. E então começará a sentir a profundidade e o refinamento do Aikidô como arte marcial.

Em síntese, somente através de um treinamento efetivo no Aikidô é que podemos compreender a plenamente a dimensão essencial do Budô — o treinamento constante da mente e do corpo como disciplina básica para os seres humanos que trilham o caminho espiritual. Só então podemos compreender completamente a recusa de competições e torneios de Aikidô e o motivo que justifica as demonstrações públicas como sendo uma amostra de treinamento constante, e não de exibição de ego.

 

Trecho do livro “O Espírito do Aikido”.

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Colaboração:

www.impressione.wordpress.com

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O Caminho

14/07/2009

O que é mais importante em uma jornada, o ponto de chegada, a finalização da caminhada, a consolidação do sacrifício ou a própria jornada em si?

Quando se faz um curso, uma faculdade, uma arte marcial, é comum estabelecermos metas e, mais comum ainda, focarmos na conclusão desta empreitada como meta principal. Mas onde se esconde esta conclusão, num diploma universitário, num certificado de conclusão de curso, numa faixa preta?

Quando estamos para nos formar, seja em que área ou nível, é comum pensarmos que chegamos ao topo do que esperávamos. Estudamos, graduamos todas as etapas do curso e chagamos ao final. Sentimo-nos realizados e os deslizes que cometemos durante essa caminhada são esquecidos, assim como os sucessos. Tudo deixa de ser importante face ao júbilo da formatura, da última prova, da entrega do último trabalho acadêmico. Quando seguramos o certificado de conclusão, a euforia consome todo o esforço da caminhada. Pouco tempo depois, nos deparamos com um novo dilema, estamos no mercado de trabalho, sem experiência, estagiando. Deixamos o topo para ocupar nossos acentos na trajetória profissional, no fim do ônibus. Passado mais algum tempo, quando avançamos em nossas carreiras, nos damos conta de que não aproveitamos tudo o que aquele curso, professores ou instituições tinham a nos oferecer. Quem, ao elogiar a competência de um professor não concluiu ou apenas pensou: se tivesse perguntado mais, me dedicado mais…. .Isso porque visamos “passar de ano” e o estritamente necessário para isso passa a ser o bastante.

Se considerarmos que a conclusão de um curso é apenas uma das etapas deste, passamos a valorizar cada uma dessas etapas. Se dividirmos cada etapa dessas em outras e essas em outras mais, passaremos a nos dedicar a cada dia como se fosse o último, a cada exercício como se fosse à prova final, a cada nova informação como se fosse o conteúdo do nosso curso. Com isso, a meu ver, não criaríamos alunos bitolados e estressados, mas alunos apaixonados, alunos interessados todos os dias. A arrogância do veterano não existiria e sim a consciência de que este está apenas a alguns passos à frente de seu companheiro, mas também, a quilômetros atrás de seu professor. Teríamos profissionais conscientes da situação de sua profissão, da importância dela na sociedade e da necessidade de torná-la mais completa e digna, não importando qual fosse. Seriamos mestres e aprendizes com a responsabilidade de auxiliar a que sabe menos e com a humildade, a reverência e o respeito para com os que sabem mais.

Um monge, certa vez, convidou dois discípulos para uma jornada. Cada um a faria sozinho, a seu tempo e no final dela se revelaria o maior tesouro do mundo. O caminho não era definido, mas o ponto final era o topo de uma montanha. Quando o primeiro discípulo chegou ao final da jornada, três meses haviam se passado desde a sua partida e o monge estava a sua espera.

– Pronto mestre, cheguei o mais rápido que pude, onde está o meu prêmio? – Temos que aguardar o segundo discípulo chegar para concluirmos o teste, afirmou o monge. – Mas mestre, eu fui o mais rápido passei por todas as dificuldades que o terreno apresentou, lutei com sentinelas das cidades por onde passei, persuadi e subornei exércitos de fronteira para chegar o mais cedo possível aqui, e tenho que esperar pelo meu adversário? Mas o monge foi irredutível e os dois passaram a esperar pelo segundo discípulo.

Ao final do terceiro ano eis que chega o segundo discípulo, calmo com semblante cansado, mas infinitamente mais feliz, abraçou o seu igual, fez reverência a seu mestre e sentou-se sem pedir ou exigir nada. O primeiro discípulo então esbravejou: – Eu exijo receber o meu prêmio, fui o mais rápido, o mais esperto, o mais forte e cheguei aqui muito antes que meu adversário, desde então estou aqui sem fazer nada, impaciente, sem nem o aprendizado diário das tarefas do templo que deixamos antes desta competição. O monge levantou-se, calmamente, foi até uma tina d’água, encheu dois copos com água e se pôs em frente a seus dois discípulos. Encarou o primeiro discípulo, e perguntou: O que você deseja receber? O discípulo, impaciente se viu sem resposta, concentrou-se tanto no tesouro que não fazia idéia do que esperar deste. Diante da inatividade do primeiro discípulo o monge voltou-se para o discípulo que acabara de chegar e perguntou. O que você deseja receber? O discípulo abriu um sorriso e falou: – Não desejo nada, mestre, nada que não tenha conquistado nesses três anos de jornada. Consegui ajudar famílias inteiras com os conhecimentos médicos aprendidos no tempo de reclusão, fiz amigos em todas as cidades por onde passei, uni, com conselhos, povos que punham seus exércitos nas fronteiras de seus territórios a fim de intimidar seu vizinho, evolui fisicamente, pelas dificuldades dos caminhos trilhados e cataloguei recursos e terras até então desconhecidas. Toda a minha caminhada foi o crescimento que nunca poderia imaginar. Sou-lhe muito grato por essa oportunidade.

O Monge entregou o copo d’água ao primeiro discípulo e disse: – Seu tesouro já lhe foi entregue segue seu caminho e seja feliz. E entregando o copo d’água ao segundo discípulo disse: – Já não tenho mais nada a te ensinar, volta ao templo e assume sua função como mestre, com toda honra e mérito.

Colaboração: www.aikikaizen.com.br


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