A Origem do Jujutsu – Por Marcos José do Nascimento

10/09/2013

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O sistema de combate conhecido como Jujutsu ou Jiu-Jitsu, nos seus mais diversos estilos, nasceu no Japão, designando ele genericamente todos os sistemas japoneses de combate sem uso de arma ou minimamente armado, sendo o seu uso o campo de batalha.  

Shihan Jigoro Kano informa na sua obra “Kodokan Judo” que o caracter “Ju” do termo Jujutsu significa “gentileza”, “ceder”, ideograma Ju-no-Michi, tendo o termo Jujutsu o significado de arte (prática) de ceder, da flexibilidade, como também informa que é possível que a origem do termo Jujutsu tenha nascido da expressão Ju Yoku Go o Seisu, significando Flexibilidade controla a rigidez.

Os bushis desenvolveram as artes marciais clássicas japonesas, incluindo as diversas armas, assim como também desenvolveram vários sistemas de combates armados, minimamente armados e desarmados, voltados para a aplicação em campo de batalha.

Um dos primeiros registros da existência de artes combativas no estilo japonês dos tempos primitivos é encontrado no Nihon Shoki (Crônicas do Japão), escrito no ano 720, narrando a existência de Chikara Kurabe ou competições de “Comparação de Força”.

Outros documentos do século X descrevem a mecânica de métodos combativos semelhantes, e essas habilidades foram transmitidas através dos tempos, utilizadas por guerreiros que constituíram um estrato social aristocrático e privilegiado da sociedade japonesa, sendo conhecidos como bushis, que realizaram um estudo completo de muitos tipos de lutas que empregavam instrumentos letais.

A partir do século dezessete a paz doméstica no Japão marcou o início do colapso da classe guerreira (os samurais) que havia tomado as rédeas do poder a partir do século doze, com o afastamento da família imperial.  Com o início da Era Meiji, a partir de 1868, os diversos estilos (Ryu) de Jujutsu foram-se adaptando de uma forma de luta em campo de batalha para a vida civil urbana.

Shihan Mifune, 10º Dan de Judô, assinala em sua obra, The Canon of Judo, que os principais registros acerca do assunto encontram-se do Período Edo (1600-1868) em diante, informando a existência de uma arte marcial parecida com o Jujutsu encontrada no Judo Higashuko (Registros Secretos do Judô), constando haver uma forma de luta popular desde o Período Eisei (1504-1520), existindo também a informação em uma obra intitulada Honcho-Bugei-Shoden (Uma Breve História das Artes Marciais Japonesas), publicada no Período Shotoku (1711-1715), cujo autor, Hinatsu Shigetaka, narra a existência  de um grupo de artes marciais desenvolvido ao longo da história, incluindo-se nesse grupo o Taijutsu, Taido, Wajutsu e o Gojutsu, como também narram Tadao Otaki em Donn F. Draegger, em sua obra “Judo Formal Techiniques: a complete guide to Kodokan Randori no Kata”, que, em sentido amplo, a partir do século XVII o termo Jujutsu inclui diferentes sistemas de combate como Kumi-uchi, Kogusoku, Koshi no Mawari e outros.

No mês de junho do ano de 1532, Takenouchi Hisamori fundou a Takenouchi Ryu, referindo-se ao Jujutsu como Yawara.

Do estilo (Ryu) Yoshin, informam Shihan Jigoro Kano e T. Lindsay no Relatório da Sociedade Asiática do Japão, volume 15, que esta escola começou com Miura Yoshin, um médico de Nagasaki, nos tempos dos Shoguns Tokugawa, significando “Coração de Salgueiro” ou “Espírito do Salgueiro” e que a Tenjin-Shino-Ryu originou-se de Iso Mataemon, que estudou primeiro a Yoshin-Ryu, com Hitotsuyanagi e a Shin-no-Shinto-Ryu com Homma Joyemon.

O estilo (Ryu) Araki, de acordo com o Bugei-Ryusoroku (Registro dos Fundadores das Escolas de Artes Marciais) desenvolveu-se no Período Tensho (1573-1591) por Araki Numisai. O Ryoi-Shinto-Ryu, também conhecido como Fukuno-Ryu foi criado por Fukuno Schichiroemon no século XVII, desse estilo derivou-se a Kito Ryu, que chegou a possuir em determinada fase de sua história cerca de três mil praticantes.

Citamos alguns estilos (Ryu) de Jujutsu: Yoshin, Kyushin, Iga, Teiho-Zan, Kuso, Jiki-Shin, Seiso, Kashin, Isei Jitoku-Tenshin, Tenshin-Shinyo, Totsuka, Takenouchi.

Por volta do século XIX, o Jujutsu constituía-se em uma coleção de táticas usadas contra um adversário armado ou desarmado, tornando-se os seus estilos tão números que eram contados as centenas, com a multiplicação das Ryu. 

Do estilo guerreiro e marcial passou a um uso civil, o que lhe trouxe um refinamento das suas técnicas a partir do período de paz por que passava o Japão, contudo, durante já a primeira metade do século XIX estava ocorrendo uma deturpação da arte com as atitudes de alguns praticantes de alguns Dojos que acreditavam ser necessário, para a aferição da efetividade das técnicas criarem uma situação real de combate no ambiente urbano que reproduzisse o campo de batalha, passando a desafiar os praticantes de outras academias, com também agredindo alguns civis de forma aleatória, provocando badernas e confusões, trazendo a má fama para a imagem do Jujutsu, assim como realizavam exibições em teatros em combates contras praticantes de Sumô (Sumotori).

Os diversos estilos de Jujutsu incluíam duas partes em sua prática, o Randori e o Kata, constituindo-se o primeiro em técnica livre, em que dois alunos combatiam dentro do ambiente do Dojo, enquanto que o Kata era uma forma de movimentação para dois participantes de maneira pré-arranjada.

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Referências:

KANO, Jigoro. Kodokan Judo. 1 ed. Tóquio: Kodansha International. 1986.

MIFUNE, Kyuzo. Then Canon Of Judo: classic teachings on principles and techniques. Tóquio: Kodansha International. 2004.

OTAKI, Tadao; DRAEGER, Donn F. Judo Formal Techiniques: a complete guide to Kodokan Randori no Kata. Tóquio: Charles E. Tuttle Company Inc. 1997.

http://judoinfo.com/new/alphabetical-list/judo-history/136-jujutsu-by-jigoro-kanoand-t-lindsay

WATSON, Brian. The father of Judo: a biography of Jigoro Kano. Tóquio: Kodansha International.2000

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*Marcos José do Nascimento Servidor Público Federal e faixa-preta em Judô pela Higashi e de Aikidô pela Academia Central de Aikidô de Natal.

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Colaboração:

www.impressione.wordpress.com

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Kenjutsu – A Arte da Espada

14/01/2010

O Kenjutsu (a arte da espada) é reconhecido geralmente como arte combativa. Começa sempre com a espada desembainhada, já com uma intenção agressiva. Os ensinos sistemáticos históricos primeiramente registrados da espada longa japonesa começaram aproximadamente em 800 d.C. Desde esse tempo, de cerca de 1.200 estilos (escolas) foram documentados. Muitos praticantes do kenjutsu começaram a questionar se uma compreensão mais elevada poderia ser conseguida com a prática e o estudo com a espada. Assim, o kenshi (espadachim) transformou a “arte da espada” (kenjutsu) em um “caminho da espada” (kendo). Daí surgiu o kendô, por volta do século II.

Kenjutsu é considerado um bujutsu clássico (arte da guerra ou arte marcial), sendo formulado bem antes da reforma de Meiji (o clássico/moderno, que divide a linha). O ryu (escolas) clássico do kenjutsu tende a ser completamente secreto no que diz respeito à prática de suas técnicas, sendo muito fechada a pessoas de fora da Arte do Bugei. O ryu clássico do kenjutsu é o mais próximo ao treinamento clássico do guerreiro no mundo moderno. Os exemplos são Yagyu Shinkage Ryu, e Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu.

A utilização da Katana, dentro da vestimenta do Kenjutsu tradicional, consiste geralmente do hakama, no keikogi e da obi (faixa).

Os Kata (seqüência de movimentos formulados ou exercícios) é a maneira usual de aprender os movimentos intricados requeridos. Inicialmente pratica-se individualmente, mas pode-se praticar em dupla ou até mesmo com múltiplos indivíduos. A ferramenta-padrão da prática é a bokken (espada de madeira simulada) ou uma lâmina real. O corte real, e o golpe da lâmina contra feixes amarrados e caules de bambu, chamado de tameshigiri, dão à prática mais avançada do ryusha (praticante de um estilo) o impacto real da lâmina de encontro a um alvo.

Geralmente (mas não sempre) em artes marciais japonesas, os objetivos do “Do” são para melhorar o interior, enquanto os do “jutsu” concentram-se em ensinar as técnicas da guerra. Note que isto é uma convenção moderna, não algo que reflete o uso histórico dos sufixos: o que nós chamamos agora de kenjutsu pode uma vez ter sido usado como o kendo.

A convenção da terminologia de jutsu/do tal como é usada no ocidente foi popularizada em sua maior parte por Draeger. Definindo terminologicamente, a arte de ganhar lutas reais com espadas reais é kenjutsu. O objetivo preliminar do kenjutsu é vitória sobre oponentes; o objetivo preliminar do kendô é melhorar-se com o estudo da espada. O kendô tem também um aspecto forte, com os grandes campeonatos, assistidos avidamente pelo público japonês. Assim, o kendô pode ser considerado o aspecto filosófico/esportivo japonês.

Em termos de aprendizagem, o kenjutsu tem um currículo mais completo. No kendô, a necessidade limita a escala das técnicas e dos alvos. Os praticantes de kenjutsu não usam geralmente o shinai no treinamento, preferindo usar bokken (espadas de madeira) ou katana (espadas de aço) a fim de preservar as técnicas do corte da luta real da espada. O treinamento de Kenjutsu consiste em praticar a técnica do corte e executar o kata com o parceiro. Por razões de segurança, a prática livre é raramente feita com katana.

Colaboração: www.bugei.com.br


OS SAMURAIS E O JUJUTSU – Por Marcos José do Nascimento

24/11/2008

Os sistemas de combate desarmado no Japão têm a sua origem debitada a muitos homens, em especial aos samurais, exímios na arte da luta armada e desarmada. Foram eles os responsáveis pela criação de vários sistemas de combate com e sem arma, assim como a criação de diversas armas usadas nos combates, aprimorando o seu uso.

 

Os clãs japoneses eram os destinatários finais desse desenvolvimento de lutas armadas e desarmadas, pois patrocinavam esse desenvolvimento, ao mesmo que os samurais granjeavam maior projeção social nesse intercâmbio de interesses.

 

A partir do século XII, os bushis assumiram posição de liderança na sociedade japonesa e esse apogeu só findaria já na segunda metade do século XIX, a partir da Restauração Meiji, em 1868. Mas até lá, o domínio samurai determinou muitos dos valores e costumes da sociedade japonesa, influenciando sobremaneira toda a sua população.

 

Os valores transmitidos pelos samurais estão presentes hoje nas mais variadas formas de lutas japonesas, armadas e desarmadas. Elas são herdeiras desses valores e suas técnicas são a adaptação de técnicas mais antigas a uma nova realidade e necessidade hoje presentes em sociedades que não se utilizam mais da forma combate samurai usada no campo de batalha. No entanto, na época desses combates travados pelos bushis a habilidade técnica fazia a diferença entre a derrota ou a vitória, entre a vida e morte.

 

Os samurais possuíam nas formas armadas de lutar o principal meio de combate, e para uma eventualidade de perda de suas armas no campo de batalha, tiveram de desenvolver formas de combate desarmados. Essas maneiras de travar a luta sem armas, inicialmente, possuíam diversos nomes: Ywara, Tai-Jutsu, Kogusoku, Kempo e Hakuda, dentre eles.

 

A partir do século dezessete, o termo foi unificado sob o nome de Jujutsu, passando a identificar as diversas formas de luta desarmada que antes possuíam diferentes nomes.

 

Surgiram vários estilos de Jujutsu, denominados Ryu, alguns dos quais existentes até hoje no Japão. A versão da origem dos diversos estilos é variada, em alguns casos. Podemos destacar, entre outros estilos, o Yoshin-Ryu, Takenouchi-Ryu, Tenjin-Shinyo-Ryu, Shin-no-Shindo-Ryu, Kito-Ryu, Totsuka-Ryu, esta última praticada por diversos mestres da Academia de Polícia de Tóquio, na segunda metade do século dezenove.

 

Com a Restauração Meiji, em 1868, diversas práticas japonesas tradicionais começaram a ser vistas como anacrônicas pelos mais jovens e até por alguns adultos, devido à forte influência ocidental que tomava conta da sociedade japonesa da época. No entanto, ainda assim, diversos mestres e alunos, bem como considerável parcela da sociedade resistiu a esses ventos que varriam o cenário de então, preservando as práticas antigas, bem como as adaptando a uma nova realidade.

 

Dessa maneira, o Jujutsu que servia ao samurai no campo de batalha, foi se adaptando às necessidades do homem comum que vivia na cidade, bem como começou a perder o seu caráter secreto, pois até então, os conhecimentos eram passados pelo mestre do Dojô ao aluno que herdaria escritos secretos do funcionamento das técnicas, e as diversas academias não intercambiavam seus conhecimentos, mantendo-se isoladas umas das outras, devido à herança ancestral advinda desde quando os samurais tomaram as rédeas do poder no país, a partir do século doze.

 

Já próximo do final do século XIX e início, começa a despontar a idéia do “”, caminho, fazendo-se um transição do “Jutsu”, técnica, agora se trazendo uma preocupação mais voltada para a formação ética do combatente, em lugar de centrar-se os treinos apenas nas técnicas, não obstante não se pode afirmar que mesmo no período anterior não haver sido transmitidos ensinamentos de cunho moral e ético aos praticantes, contudo, a preocupação maior estava voltada para a técnica em si.

 

O primeiro a valer-se dessa idéia foi Jigoro Kano, criador do Judô, em 1882, ao transformar diversas técnicas de diversas escolas de Jujutsu em uma nova forma de combate que levou ao conhecimento do ocidente.

 

Com essa nova preocupação, percebeu-se que as práticas de arte militares propiciariam outros ganhos além do domínio de uma técnica de luta, mas contribuiriam para a formação do caráter do seu praticante, levando-o a prestar uma colaboração mais positiva na sociedade em que vivia. Aí nasce a fase do “”, saindo-se do “Jutsu”.

 

Usamos o termo “artes militares”, por entender que seja mais apropriado ao que costumeiramente conhecemos como “artes marciais”, posto que marcial é uma palavra ligada à Marte, o deus da guerra da mitologia romana, e o Japão não sofreu essa aculturação do ocidente, não obstante alguns mestres japoneses, em suas obras, usarem o termo “marcial” em referência a esses sistemas de combate, para um melhor entendimento dos ocidentais. E essas formas de combate são, na verdade, de origem militar, guardando, até hoje, traços característicos dessa identidade pela disciplina e hierarquia que promovem em seus ambientes.

 

É provável que algumas práticas ou praticantes, mesmo no dia de hoje, ainda não tenham se apercebido dessa realidade e, não obstante, estarem realizando uma prática dentro do “”, permaneçam mentalmente ainda no “Jutsu”.

 

Referências Bibliográficas:

 

01 – Jigoro Kano e T. Lindsay – 1887 (Relatório da Sociedade Asiática do Japão – Volume 15).

02 – The Father of Judo: a biography of Jigoro Kano – Brian N. Watson – Kodansha International – 2000.

03 – The Canon of Judo – Classic Teaching on Principles and Techiniques – Kyuzo Mifune – Kodansha International – 2004.

04 – Judo Formal Techiniques – A Complete Guide to Kodokan Randori no Kata – Tadao Otaki & Donn. F. Draeger – Charles E. Tutlle Companhy – 1997.

05 – Kodokan Judo – Jigoro Kano – Kodansha International – 1994.

06 – Segredo dos Samurais – As Artes Marciais do Japão Feudal – Oscar Ratti & Adelle Westbrook – Tradução de Cristina Mendes Rodrigues – Madras – 2006.

 

Colaboração: Marcos José do Nascimento – 1° Kyu (Faixa-Marrom) de Aikidô da Academia Central de Aikidô de Natal


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