Uma visão do Aikido – Por Mitsugi Saotome Shihan

08/09/2016

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O Aikido não é uma religião, mas um processo de educação e refinamento do espírito. Você não será convidado a aderir a nenhuma doutrina religiosa, somente a manter-se espiritualmente aberto. Quando nos curvamos em reverência isto não é um gestual religioso, mas um sinal de respeito pelo mesmo espírito da inteligência criativa universal que está dentro de todos nós.

A cerimônia de abertura e encerramento de cada treino de Aikido é uma reverência formal em direção ao shomen, seguindo-se duas palmas e novamente outra reverência ao shomen e então uma reverência entre o instrutor e os alunos. As reverências em direção ao shomen simbolizam o respeito pelo espírito e pelos princípios do Aikido e gratidão ao Fundador pelo desenvolvimento deste sistema de prática e estudo. As duas palmas simbolizam unidade, musubi. A primeira palma envia nossa vibração ao mundo espiritual. A segunda recebe o eco dessa vibração e conecta seu espírito com o espírito do Fundador e com a Consciência Universal. A vibração que você emite e o eco que você recebe são ditados pelas suas próprias crenças espirituais e atitudes.

Não há modo certo ou errado no Aikido. Se um movimento obedece às leis físicas do universo, está correto. Se você obedece às leis físicas do universo, sua atitude deve estar correta. Em seguir estas leis você está seguindo o caminho (a vontade) de Deus. Portanto, Aikido não é um treinamento técnico. É um treinamento de sabedoria.

Não há kata individual no Aikido porque Aiki é a harmonia das relações. Numa área de treinamento de Aikido você encontrará pessoas de diferentes níveis sociais, diferentes culturas e linguagens, diferentes filosofias políticas e religiosas. Elas não estão juntas para competir ou para pressionar suas próprias ideias sobre quem quer que seja, mas para aprender a ouvir um ao outro, a comunicar-se através do contato do Aikido. No tatami onde treinamos nós não podemos esconder nossa verdadeira identidade. Mostramos nossas fraquezas tão bem quanto nossas forças. Suamos juntos, nos cansamos juntos, ajudamos um ao outro e aprendemos a confiar. Todos estão estudando os mesmos princípios universais e a essência, que é a mesma em cada um, torna-se brilhantemente clara assim como cai a máscara de insegurança e o ego. Somos todos indivíduos mas também somos todos parte de cada um. Se você estivesse sozinho no universo sem ninguém para conversar, ninguém com quem compartilhar a beleza das estrelas, para rir juntos, para tocar, qual seria seu propósito de vida? É outra vida, é amor, que dá significado a sua vida. Isto é harmonia. Devemos descobrir a alegria de cada um, a alegria dos desafios, a alegria do crescimento.

No treinamento do Aikido você não vence. Em tentar vencer você perde. Se você vê o treinamento como competição, você perde, seu parceiro de treino perde, todos perdem. Se você encara a vida como competição, você não pode vencer, pois consequentemente você morrerá. Mas se você vê a vida como um processo de criatividade universal, você nunca morrerá, pois você faz parte deste processo. Se você encarar o crescimento do seu corpo e sua mente como um prelúdio para um crescimento espiritual, sua força durará para sempre.

Uma mente voltada para desafios não é uma mente voltada para competição. O maior desafio é desafiar-se a si próprio. Você não deve passar sua vida inteira buscando por segurança. Se você cobrir-se de camadas e camadas de pesadas armaduras, você ficará incapaz de mover-se, incapaz de lutar e de proteger a si e aos outros. Você nunca sentirá o toque quente do sol nem a força de uma tempestade sobre sua pele. A alegria se perderá. Sua liberdade e independência se perderão.

Se você passa a vida na segurança de uma caverna ao pé da montanha, você verá somente escuridão. Sua experiência será limitada e você nunca sentirá a doce dor do crescimento. Você deve deixar esta proteção e segurança e desafiar a si mesmo nas montanhas acima de você. Você deve escalar cada vez mais alto, elevando sua visão, sua habilidade e experimentar expandir-se a cada topo. E estando aberto e desprotegido do vento, com o sol e a neve tocando seu coração, você experimentará o grande panorama do universo inteiro a seu redor. Você alcançará e tocará galáxias e quem sabe, tocará a face de Deus.

Bushido é desafio e sacrifício. É o poder e a força de um espírito independente. Um espírito dependente é fraco e não consegue sacrificar seu próprio egoísmo e sua ganância. Para ser verdadeiramente independente e provar o desafio da liberdade, o espírito deve estar vazio. Numa análise final, você, e somente você, é o responsável pelo seu próprio crescimento. Você cria a sua própria realidade.

Você sente dor, você sente medo, mas está intensamente vivo. Escalando uma montanha de gelo, com frio, faminto, exausto, você está só com o som do vento. Desista e você morre. Talvez um passo, talvez uma polegada por dia, mas tente. A vida é a mesma coisa. Às vezes com frio, com fome, e sozinho. Você deve depender exclusivamente de você. Isto é Bushido.

Este é o meu mundo do Aikido. A busca pelo topo das montanhas.

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Extraído do livro Aikido e a Harmonia da Natureza de Mitsugi Saotome

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Colaboração:
http://www.impressione.wordpress.com

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A Consciência Tríplice no Aikido: para além do conflito interno, um relato pessoal – Por Rafael Jhonata

23/05/2014

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É engraçado como no começo da prática de Aikido nos deparamos com conselhos tão valiosos, mas para os quais não dispensamos muita atenção. Desde a primeira vez que coloquei os pés no tatame, tenho ouvido meus Sensei(s) dizerem: “Olha a postura, preste atenção na respiração, movimente o centro, Aikido é jeito e não força”… Eu até tentava dispensar a atenção que eles me solicitavam, mas por algum motivo isso não passava, se muito, dos primeiros minutos da prática – quem já treina há algum tempo, sabe exatamente ao que me refiro. Não se trata de ignorar a ordem de nossos mestres, mas ao vermos a energia de uma intenção dirigir-se a nós, automaticamente nosso senso de autopreservação fala mais alto, e quando não ficamos paralisados, com medo de sermos pegos pela energia contrária que pode se manifestar na forma de um golpe frontal (tsuki, atemi, shomen, etc.) ou um aprisionamento (katadori, morotetori, etc.), tentamos impor nossa força física sobre nossos colegas, tentando conduzir por meio da força, o que deveria ser conduzido por meio da leveza.

E foi justamente pensando nessas coisas que nos meus últimos treinos decidi mudar a abordagem. Tentei me manter presente durante todo o treino, tanto quando estava no papel de Uke, como quando estava no papel de Nage. Comecei a prestar atenção na respiração, mesmo durante a prática do aquecimento que antecede o treino e tentei expandir meus sentidos para conseguir registrar as mínimas sensações em meu corpo. O resultado não poderia ser mais gratificante.

Pela primeira vez, durante esses quase quatro anos de treino, eu pude registrar uma experiência de aprimoramento pessoal e extrassensorial. Pela primeira vez eu estava totalmente presente durante a prática e o mais incrível de tudo, foi o despertar de uma consciência que até então eu apenas tinha ouvido falar a respeito. Enquanto realizávamos uma prática de Sankyo, eu senti minha consciência se desdobrar e se separar da própria ideia de unicidade física – já não era apenas o Uke ou Nage, mas ao mesmo tempo uma terceira entidade que era capaz de observar tudo, sentir tudo. Ao passo em que a prática ia se desenrolando e a mente objetiva tentava entrar em grau de relaxamento automático (você já viu esse movimento centenas de vezes, já o executou umas mil, então pra quê prestar atenção nisso?) essa terceira entidade que ao mesmo tempo era e não era eu, me questionava: “onde você está agora?”. Devido a esse nível de atenção, toda a movimentação alcançou um novo aspecto, de repente eu sabia exatamente como e quando me movimentar. Sabia exatamente quando meu colega estava com o braço no ponto exato de tensão necessário e podia registrar tudo o que ocorria a minha volta, sem precisar ficar olhando diretamente para as coisas, inclusive lembro-me de ter comentado com ele: “é incrível como as coisas ficam quando nos dispomos a fazer algo com toda a força de vontade, a prática se torna totalmente diferente e tudo vira uma verdadeira explosão sensorial”.

Repito, nunca havia experimentado algo assim e espero nunca mais perder essa capacidade. A caminhada será longa, tenho certeza que esse foi apenas o insight inicial, mas mesmo assim me sinto grato por conseguir alcançar o ponto primeiro daquilo que sempre desejei conseguir após ingressar no Aikido.

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*Rafael Jhonata – Faixa-amarela, Aluno da Academia Central de Aikidô de Natal.

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Colaboração:

www.impressione.wordpress.com

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O Treino de Sexta – Por Diogo Paschoal

13/05/2014

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Nessa última sexta, durante o treino com espada, finalmente, eu consegui entender um erro besta, mas que fez muita coisa fazer sentido.

Sensei James tem frisado bastante o movimento com a espada em cada uma das mãos, separadamente. Primeiro fazemos com uma, depois fazemos com a outra. Eu achava que era só pra entendermos como segurar a espada de forma correta, como movimentarmos ela de forma correta.

Desde a primeira vez em que comecei no aikido (em 2009), e comprei minha espada, eu treinava no quintal de casa, na areia mesmo e repetia os mesmos movimentos por um tempo razoável. Corte na linha do shomen, corte na linha de yokomen. Sempre procurando prestar atenção na noção de centro e sempre atentando para o tai sabaki.

Depois de 4 anos afastado e fazendo uns 8 meses desse retorno, no treino de sexta, ainda percebi o mesmo erro: o corte em zigue-zague, Um “S” que a espada faz ao descer eu sempre me perguntava: – o que diabos eu tô fazendo errado??? – Por que danado essa espada não desce reta? – Será o lance de “tremor essencial” que minha família tem? Uns tremores quase imperceptíveis dos membros, mas que não são parkinson.

Juntando algumas coisas que o senpai Iran tinha me ensinado em um dia de treino com espadas com o que Sensei James tem repetido e insistido de forma tão sábia, acho que entendi o que provavelmente a maioria de vocês já sabem: usar a força das duas mãos. Ora, eu estou descendo a espada com as duas mãos. Eu não posso desequilibrar a força de uma com a outra. As duas tem que doar a energia necessária de forma equilibrada para que o corte saia certo, coerente, firme, mas com sensibilidade suficiente para que as duas se harmonizem.

A partir disso, outra coisa bacana me veio à cabeça, sobre o estudo de uke que venho fazendo: temos um uke e um nage dentro de nós o tempo todo. Vemos isso na natureza, na homeostase, na entropia, em tudo… O tempo todo, temos forças conflitantes dentro de nós, que, na maioria das pessoas, só chega ao ponto de equilíbrio quando estamos pertinho de fechar os olhos pela última vez.

Assim como o estudo de uma coisa simples como o descer de uma espada merece atenção, cuidado, carinho e sensibilidade, eu percebo o quão importante tem sido doar a energia necessária da firmeza, do amor, da imperatividade, da calma e estudar isso. Vejo isso no meu filho, quando procuro educá-lo. Vejo isso na minha esposa, quando procuro entender os anseios dela, vejo isso nos meus amigos, quando procuro entender o ciclo da vida deles, vejo isso em mim, quando procuro entender que tenho um uke extremamente agressivo, territorialista, arrogante, bruto e que vai aprendendo aos poucos a doar a energia necessária para que o nage execute as tarefas do dia a dia.

Sempre me cobrei tanto, sempre fui tão exigente em fazer as coisas da forma correta, ter valores excelentes, um caráter irrepreensível que, quando falhava de forma miserável, eu sentia o peso de tudo e todo o trabalho parecia perdido. Passei 4 anos afastado do aikido, e sempre me prometendo voltar, lembrando do que Sensei Sérgio falou uma vez sobre as correntes que criamos para nós mesmos, que nos prendem a maus hábitos e a coisas negativas. E, quando passei a me aceitar, a abraçar meus erros e entender que eles fazem parte de quem eu sou, comecei a ter mais força pra trabalhar esses erros, a quebras as correntes, a ser um uke melhor para meus colegas, para meu filho, para minha esposa e passei a me respeitar e amar mais, afinal, se eu não conseguir ser um bom uke para meu nage interior, nunca vou conseguir fazer um shomen em linha reta, nunca vou conseguir sequer andar sem tropeçar e me sentir animado a continuar andando.

Sinto uma enorme gratidão a meus colegas por terem me proporcionado isso e aos sensei que tem nos acompanhado no aprendizado que só acaba quando descansamos no final da vida.

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*Diogo Paschoal, faixa-amarela, Aluno da Academia Central de Aikidô de Natal.

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Colaboração:

www.impressione.wordpress.com

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