AIKIDO PARA O DIA-A-DIA – Por Daniel Nicolau de Vasconcelos Pinheiro

17/02/2014

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Nas primeiras aulas de Aikido, recebemos várias explicações básicas sobre o funcionamento dos treinos, técnicas, etiqueta no tatame, entre outras. É natural que, ao longo da permanência do aluno nos treinos, a curiosidade comece a aumentar e que passemos a ler sobre aquilo que aplicamos nas práticas. Sensei fala – Aikido é para o dia-a-dia, exercício para o corpo e disciplina para a mente. Esta frase parece mais um simples jargão clichê que poderia ser aplicado a todas as formas de se exercitar ou mesmo outras artes marciais, mas nos parece que esta máxima é um pouco mais profunda na bela arte do “caminho para a harmonização das energias”.

Para sustentar esta afirmativa lembramos que, dentre muitos princípios que doutrinam a arte aikidoca, há um que nos dias de hoje nos parece um dos mais importantes, inclusive para o aprendizado e desenvolvimento dos outros princípios. Este é chamado Missogui, que significa: “a prática para remover a poluição (Kegare) do corpo, da mente e do espírito (…). Missogui é o primeiro conceito do Xintoísmo esotérico. É o Missogui aquilo que cria espaço dentro do indivíduo para que ele possa entrar em conexão (Mussubi) com o mundo divino.[1]

Abrir espaço para algo dentro de nós nos dias hoje é tarefa muito difícil, principalmente na sociedade ocidental, cada vez mais capitalista, consumista e desumana. E é neste ponto onde encontramos o maior presente que a prática do Aikido oferece. Um bom sensei irá levar o aluno à pratica do missogui no tatame mesmo sem que ele perceba. No entanto, quando o fazemos de forma consciente ele é muito mais proveitoso e eficiente. “Aikido é o exercício de estarmos sendo ensinados pelos Kamisama (divindade), sobre as vibrações da criação universal (tamashii)”.[2] É preciso estar aberto a estes ensinamentos para recebê-los em sua plenitude.

Para entrarmos no estado onde possamos nos harmonizar com a energia universal e ao aprendizado do Aikido, precisamos nos abrir e sermos propensos a receber. É aí que começa o exercício interno verdadeiro.

A prática do Missogui pode ser realizada de diferentes formas e ao longo de todo o dia. Algumas formas são mais ritualísticas, ligadas à religião e outras mais mundanas. Neste texto, não entraremos em detalhes sobre a ritualística Xintô, pois o nosso objetivo é justamente dar uma pincelada no que a segunda prática pode gerar de benefícios ao praticante de Aikido.

A etiqueta cobrada dentro do tatame e a presença do sensei, já nos convidam a doutrinar a mente para fazer uma pausa no nosso dia e descansar das preocupações. A “ritualística” da aula, o respeito pelas explicações e o treino do que é ensinado buscando imitar os movimentos da forma demonstrada nos leva a um estado de concentração que começa a limpar nossa mente de outros pensamentos, problemas, preocupações, etc.. A concentração “forçada” nas técnicas de queda, principalmente quando estamos como Uke, leva a aflorar nosso instinto de autopreservação que acaba por ajudar a retirar de nossa mente pensamentos ruins. Então o Missogui acontece. Começamos a retirar de nós tensões, asperezas e preocupações e, ao fim de um bom treino, começamos a ver tudo de forma diferente, com a mente mais tranquila e o corpo mais relaxado. Somos até capazes de julgar melhor os motivos de nossas apreensões e tomar decisões mais centradas.

Qual a mágica? Não há mágica, há perseverança, disciplina, disposição para o aprendizado e consideração mútua. Para que ocorra uma aula proveitosa que nos permita praticar o Missogui, é preciso que estejamos dispostos a ceder e a se por no lugar do outro enquanto nage, respeitando as condições físicas e mentais dos nossos colegas de treino. É necessário também que quando Uke, estejamos prontos para sermos flexíveis e perceber a condução do nage, condução esta que pode ser encarada como uma analogia para as formas que a vida nos apresenta as mais variadas situações.

De nada servem as correções e as explicações individuais se não houver espaço mental e humildade para recebê-las. A limpeza interna abre espaço para o aprendizado e para os bons sentimentos de todos aqueles que partilham o dojo conosco. Devemos nos sentir gratos pelas oportunidades e por toda a doação que encontramos no sensei e nos colegas de treino.[3]

Concluindo esta exposição, lembro a frase de Kisshomaru Ueshiba parafraseando o Fundador, “a ressonância do corpo deriva da unidade mente-corpo que se harmoniza com a ressonância do universo”[4]. Para que esta ressonância seja positiva e possamos nos beneficiar dela, precisamos estar no estado adequado para dar e receber. O Missogui é uma prática que nos leva a purificar-nos e abrirmos espaço para aprender a receber, sabendo conscientemente o que e como. E para nós, este é um grande diferencial da prática do Aikido das demais atividades físicas e artes marciais e um grande exercício para toda vida.

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*Daniel Nicolau é Arquiteto, Servidor Público e faixa-preta 1º Dan (Shodan) da Academia Central de Aikidô de Natal.

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Referências:

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[1] BULL, Wagner José. Aikido-caminho da sabedoria. A Teoria.Editora Pensamento, São Paulo. Pg 181 e 182.

[2] Idem

[3] SUNADOMARI, Kanshu. A iluminação através do Aikido. Ed. Pensamento. São Paulo 2006. Pg. 107 a 109.

[4] UESHIBA, Kisshomaru. O espírito do aikido. Ed. Cultrix. São Paulo, 1984.

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Você cuida do seu Dojô!? – Por Carlos Eduardo

17/01/2014

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Fala galera!

Quando eu era pequeno e abria a gaveta do guarda roupa, por uma mágica que eu desconhecia naquele tempo, minhas meias, camisetas, shorts, calças, blusas, cuecas, etc., apareciam sempre limpinhas e dobradas na gaveta. Por mais sujeira que eu derrubasse nelas, por mais que eu me deitasse no chão sujo (e quando digo sujo, leia-se imundo mesmo), por mais que eu as rasgasse subindo em árvores, elas sempre reapareciam intactas ou na melhor condição possível depois destes eventos… rs. Com a casa não era diferente, ao brincar eu espalhava meus brinquedos, deixava papéis e canetas pela casa, o chão ficava manchado por conta das bolhas de sabão, mas no outro dia, tudo estava limpo e organizado para uma nova etapa de diversão.

Quando cresci, descobri que essa “mágica” era administrada por uma pessoa experiente, com conhecimentos de química, ergonomia, administração, entre outras ciências… minha mãe! Ela cuidava de tudo, e garantia um ambiente pronto e adequado para o meu crescimento. Por essas e outras – Mãe, meu eterno agradecimento!

Aí vocês me perguntam – Mas Cadu, como você descobriu isso!? – vou contar pra vocês. Não foi minha mãe que me contou com o intuito de ganhar algum crédito, jamais… Aprendi isso no DOJO! Sim, isso mesmo, no dojo! Já tive que limpar muito tatame por aí, organizar banheiros, vestiários, e outros cômodos de escolas por onde passei…

Lá as coisas não aparecem organizadas por mágica. Lá, ou nós fazíamos, ou tudo ficaria uma bagunça… e com isso, também aprendi o trabalho em equipe.

Há pouco tempo, aprendi também no dojo, que se queremos ensinar isso aos nossos alunos, não basta simplesmente mandá-los pegar uma vassoura e cuidar do tatame, precisamos liderar pela frente, mostrando como se faz, dando exemplos e cuidando do dojo com carinho, pois é nesse lugar que alcançamos tanto conhecimento para a vida.

Se nos preocuparmos em cuidar uns dos outros fora do tatame, exatamente como  nos preocupamos durante a prática do Aikido, nosso cotidiano será muito mais agradável.

Então, deixo aqui a pergunta: QUEM CUIDA DO SEU DOJO!?

Mãos à obra…

ABRIU ? FECHE.

SUJOU ? LIMPE.

ACENDEU ? APAGUE.

LIGOU ? DESLIGUE.

QUEBROU ? CONSERTE.

DESARRUMOU ? ARRUME.

É DE GRAÇA ? NÃO DESPERDICE.

NÃO SABE COMO FUNCIONA ? NÃO MEXA.

NÃO SABE COMO FAZER MELHOR ? NÃO CRITIQUE.

ESTÁ USANDO ALGO ? TRATE-O COM CARINHO.

NÃO SABE CONSERTAR ? CHAME QUEM FAÇA.

PARA USAR O QUE NÃO LHE PERTENCE ? PEÇA LICENÇA.

ESTÁ FAZENDO ALGO ? FAÇA COM ATENÇÃO E BEM FEITO…

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*Carlos Eduardo, Cadu, é faixa preta 3º grau de Aikido no Espírito Santo, 32 anos e Educador Físico.

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MISOGI – Por Hiroshi Ikeda

25/09/2013

Hoje eu e minha esposa saímos cedo do trabalho e fomos para a escola de nosso filho antes do final da aula. Era nossa semana de fazer a limpeza da sala de aula da 4ª e 5ª série. Nesta escola cada família participa pelo menos uma vez no ano da limpeza da sala de aula de seus filhos, fazendo a limpeza (o que é muito encorajado), ou pagando $40 para que a escola contrate alguém para fazer isso (o único zelador da escola). A maioria das famílias escolhe ir fazer a limpeza.

Nós temos feito isso desde o jardim de infância, e se tornou um ritual do qual gostamos muito. Acho que estar no meio da ação nos faz sentir que fazemos parte da escola, isso nos dá um sentimento de conexão com o lugar em que nosso filho passa várias horas de seu dia. Nós fazemos isso por ele, pelo professor, por seus colegas, fazendo uma pequena contribuição para manter o mundo deles limpo, em ordem e agradável. De uma maneira simbólica, estamos recompensando seu professor, a quem ele adora (e nós também) por ter uma influência tão positiva em sua vida.

Então dizemos “olá” para os outros pais e vamos ao armário do zelador, pegamos um aspirador de pó e uns sacos de limpeza e vamos para a sala de aula de Jill. É claro que nosso filho preferiria passar o tempo no laboratório de computação enquanto nós limpamos as mesas e tiramos manchas dos teclados, mas ele se junta a nós por tempo suficiente para limpar o quadro negro guardar o aspirador de pó. Além disso, ele nos lembra que “faz seu trabalho” todos os dias. Isto é, as tarefas que as crianças fazem em turnos antes de ir para casa, pequenas coisas como alimentar o porquinho da índia, limpar em baixo das mesas, guardar as cadeiras e suprimentos.

Eu descobri que esta escola é uma exceção neste caso. Isso me surpreende, porque em todas as escolas que frequentei no Japão, as crianças não limpavam apenas suas salas de aula, mas também os corredores e áreas comunitárias. Nós limpávamos e lavávamos as janelas. Isso não era uma punição, de forma alguma; era o que tínhamos que fazer, e tínhamos orgulho de trabalharmos juntos para cuidar de nosso espaço. Acho que não pensávamos nisso, mas estávamos aprendendo sobre responsabilidade, respeito, realizações e cooperação.

Como a sala de aula, o dojô é um lugar importante – muitos diriam que talvez seja ainda mais importante que uma sala de aula, porque no dojô nosso trabalho é refinar habilidades que podem nos colocar no limite entre a vida e a morte.

Acredito que muitas pessoas hoje em dia confundem o dojô com algum tipo de centro de recreação. Mas diferentemente de um centro esportivo para levantamento de peso ou um ginásio para a prática de esportes, um dojô de artes marciais abriga o kami (deus) do budô. Isso quer dizer que em um dojô, o espírito do bushidô, ou uma lei de conduta, permeia o treinamento. Quando um dojô perde isso, sofre as consequências. Acredito que isso é o espírito do budô – este refinado sentimento de respeito – o que distingue um dojô, e é o que levamos em nós para nosso comportamento perante a sociedade.

O próprio ato de cuidar do dojô nos permite manifestar fisicamente o processo de purificação de nossos espíritos. Da mesma forma, as pessoas entram no dojô e deixam suas preocupações lá fora, o próprio dojô deve refletir a postura mental pura de seus ocupantes, para que os alunos possam se mover com segurança e liberdade no futuro pelo caminho do budô.

Infelizmente, às vezes vejo que alguns alunos consideram que o treinamento não tem nada a ver com este simples ato de cuidado. O espírito do dojô reflete a forma com que cada individuo encara seu treinamento, e isto inclui a forma como ele ou ela trata o próprio dojô. Acredito que uma pessoa que treina em um dojô deveria considerar que este espaço é, de alguma maneira, uma manifestação deles próprios, e deveriam encarar sua purificação da mesma forma que fariam a purificação e a renovação de seus próprios espíritos.

Através da história e das culturas, o ato de limpeza e purificação tem sido um gesto tanto prático quanto simbólico de grande significado. No Japão, este tipo de purificação ritual ou “misogi” é uma parte integral e muito importante da vida diária. Por exemplo, no final de dezembro, quase todas as pessoas em toda a nação cooperam dentro de suas famílias, escolas, companhias e dojô para limpar os lugares em que se reúnem. Ao fazerem isso, são capazes de receber o novo ano com seus ambientes purificados, bem como com suas almas purificadas. Outros rituais de misogi podem incluir a purificação do local da construção de um edifício antes que a obra comece. Antes de cada luta de sumô, o esporte nacional Japonês, os lutadores purificam o ringue aonde irão competir jogando sal sobre ele.

Parece um paradoxo que atos simples e mundanos possam ter o poder de transformar, mas este fato tem ressurgido repetidamente através dos tempos. Se polirmos o espírito, talvez um dia o espelho esteja imaculado, e então veremos nosso verdadeiro reflexo.

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* Hiroshi Ikeda – 7° Dan de Aikidô

Tradução para o Inglês: Jun Akiyama, editado por Ginger Ikeda

Tradução: Jaqueline Sá Freire – Brazil Aikikai – Hikari Dojo – Rio de Janeiro

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O Coração do Aikidô – Por Shirata Rinjiro e John Stevens

05/08/2013

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Milhares de horas são gastas no desenvolvimento das técnicas, porém muitas mais são gastas lutando com os grandes tópicos da existência humana, portanto considerar o Aikidô como uma arte marcial que envolve somente arremessos e imobilizações – habilidades que podem ser adquiridas em qualquer sistema de defesa pessoal – é um insulto à incansável busca espiritual do fundador.

A mensagem do fundador, no entanto, não pode ser assimilada rapidamente. Ele usou livremente ideias para expressar sua própria visão, sendo que suas conversas eram uma mistura de frases do Budismo esotérico, obscuros mitos Xintoístas e enigmáticas doutrinas da Omoto-Kyo. Nenhuma pessoa, incluindo o próprio fundador, jamais alegou compreendê-las por completo, e em uma ocasião ele afirmou : Palavras e letras nunca poderão adequadamente descrever o Aikidô – seu significado é revelado somente para aqueles que através de um intensivo treinamento obtém o esclarecimento”.

Shirata Sensei contou-me que embora estivesse no início totalmente confundido pelas explicações de Ô-Sensei, gradualmente com o passar dos anos elas começaram a fazer sentido.

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A seguir está um resumo dos pontos chave da filosofia religiosa do fundador, feito por Shirata Sensei. 

O Aikidô possui sua própria cosmologia. As palavras Aiki, Kami e Takemussu são termos antigos, porém o fundador as reinterpretou sob a luz de seu profundo despertar. Ki é a energia primária que surgiu do vazio. Através do Aiki, a combinação do Ki positivo com o Ki negativo (Yin e Yang), as infinitas formas dos fenômenos foram e são manifestadas. Aiki, a fonte e amparo da vida é KamiO Divino”, originalmente essa palavra consiste dos caracteres Ka (fogo) que simboliza o espírito e Mi (água) simbolizando a matéria. A confluência desses dois elementos resulta no surgimento do mundo material. A partir das funções do Kami, como o Iki (Kokyu, a vivificante respiração da vida), surgem os Kotodama (vibrações divinas). A essas duas forças procriadoras o fundador acrescentou uma terceira o Takemussu (o valor da atividade do ser), Take (ardor marcial) também pronunciado Bu como em Budô é o empenho incansável; Mussu é Mussubi, o poder de transformação.

A grande percepção do fundador sobre o universo é Takemussu Aiki. Em seu mais alto nível Takemussu Aiki pode ser interpretado dessa forma: “Bu nasceu do Aiki; Bu dá a luz ao Aiki.” Dentro da perspectiva humana, poderia ser descrito assim: “Eu nasci dos meus pais; Eu dei a luz aos meus pais.” Isso é o mesmo que dizer, “Eu sou Aiki; Eu sou o universo!” Em termos mais concretos Aiki é primeiramente aplicado para harmonizar as três funções: Corpo, mente e Ki.

Depois de realizada essa harmonização, usamos o Aiki para fundir nossos movimentos com os do parceiro quando executamos uma técnica, nesse caso Aiki é A-i-Ki representado por um triângulo, um círculo e um quadrado que juntos formam os modelos básicos da criação. Os movimentos do Aikidô surgem a partir desses modelos: postura triangular, entrada circular e controle quadrado (Devemos lembrar que as técnicas não são Aiki; Aiki trabalha através das técnicas).

Uma vez que essas harmonizações são alcançadas – não com muita facilidade – é necessário nos colocarmos em sintonia com a natureza, naturalmente nos ajustando à suas mudanças (é por isso que os Dojôs no Japão nunca estão frios ou quentes demais para se treinar). Eventualmente nós imperceptivelmente nos fundimos com o universo, incorporando seu dinamismo ao nosso próprio, esse processo completo é Kimusubi (unificar os Ki para promover a vida). O Aiki unifica o corpo e a mente, nosso Eu com os demais, matéria e espírito, o homem e o universo. Em seus últimos anos o fundador sugeriu que Ai (harmonia) deveria ser vista como Ai (amor), já que o amor é a forma mais elevada da harmonia que nutri todas as coisas e as conduz para a realização.

O amor é a divindade guardiã de todos os seres; sem o amor nada pode florescer. O caminho do Aiki é uma expressão do amor. . . o amor não odeia, ao amor não existe nada para se opor. O amor é a essência de Deus”.

Kami Sama (Deus) foi a frase que o fundador usou para representar o mais elevado nível, o absoluto, o espírito universal de amor e harmonia. Hito, palavra japonesa para ser humano, é composta do símbolo Hi (centelha divina) parada temporariamente nesse vaso ao qual chamamos nosso corpo. O Ka de Kami, e Hi de Hito são o mesmo símbolo – Se não há Kami não há Hito e vice-versa. É por isso que o fundador insistia que “O ser humano é filho de Deus e um santuário vivo do divino”.

Aiki O Kami (O grande espírito do Aiki) é o símbolo supremo dos ideais que o fundador mais estimava. Através da prática devota das técnicas do Aikidô – funções do divino – é possível avançarmos para esse elevado estado. De fato podemos nos tornar um Kami, um ser humano perfeito. Um Kami não é uma criatura sobrenatural, mas sim alguém que descobriu sua verdadeira natureza – nada mais que o universo em si – através de seu constante esforço. “O Aikidô é o caminho de Deus estabelecendo a força do Aiki e edificando a força da atividade divina”.

A força da atividade divina é nenhuma outra senão Takemussu Aiki. Antigamente Take significava “lei da selva”: “Se eu não o matar, ele provavelmente o fará”. Tal atitude é contrária à sobrevivência da humanidade, o fundador compreendeu que Take não significava destruição e morte, mas sim vida e luz. A força e determinação do guerreiro devem ser canalizadas para um propósito elevado: O restabelecimento da harmonia, a preservação da paz e a proteção de todos os seres. Shirata Sensei acredita que o fundador foi uma espécie de mensageiro divino, que esteve aqui para prevenir a nós imprudentes seres humanos da inutilidade do empreendimento da guerra e da matança uns dos outros. “Aiki não é uma arte para derrotar os outros, mas sim para a unificação do mundo e para reunir todas as raças em uma grande família”.

Sobretudo o Aikidô é Misogi, o grande caminho de purificação. Já que estamos dotados de vida somos divinos, porém devido a pensamentos inferiores e imperfeições nossa verdadeira natureza está obscurecida. Em vez de utilizarmos a água para purificar nossas impurezas nós utilizamos as incorruptas técnicas do Aikidô, sendo que cada corte de espada, cada estocada do bastão e cada movimento do corpo é um ato de expulsar o mal limpando o coração.

Misogi é o processo de conduzir para fora do corpo a maldade, livrando-o de corrupções e polindo o espírito. Conforme as camadas de sujeira e corrupção são retiradas, nossa imaculada luz interior brilha com maior intensidade.

O legado espiritual do fundador – como viver em harmonia divina com o mundo e todos os seus habitantes, cheio de uma força indomável e de um criativo amor – deve ser buscado através do sincero treinamento do Aikidô.

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Shirata Rinjiro e John Stevens Extraído do livro “Aikido the Way of Harmony.

Tradução: Rubens Caruso Júnior – Instrutor de Aikidô 4° Dan – Aikikai – Aikidô Nova Era – São Paulo/SP

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Elementos do Xintoísmo no Aquecimento Moderno – Chin Kon Ki Shin – Por Dan Penrod

17/11/2008

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“Uma prática que busca auxiliar a união da pessoa com o espírito universal e ajudá-la a compreender a missão divina que é a meta a ser atingida em sua vida.” – Do glossário de Os Princípios do Aikido de Mitsugi Saotome.

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Chinkon é definido como… sossegar e acalmar o espírito e Kishin é definido como … Retornar à divindade ou kami, o que se refere a atingir um profundo estado contemplativo em que se está apoiado no universo divino.  Chinkon e kishin são geralmente praticados juntos, e a primeira parte, chinkon, envolve a revitalização dos sentidos e a concentração do espírito, e a segunda parte, kishin, envolve um estado meditativo alerta.  Já foi dito que chinkon e kishin juntos formam um método de se atingir a unidade com o divino, apesar de cada um ter sua própria função. Alguns dizem que chinkon reúne os espíritos das almas que vagueiam no éter até o tanden (centro abdominal) enquanto kishin ativa estes espíritos.

Chinkon-kishin possui raízes ancestrais que são citadas nos antigos textos Xintoístas como o Kojiki.  A prática xamanística da respiração mística e meditação da união dos espíritos divino e humano era muito usada no passado na preparação do misogi em cachoeiras, uma prática ascética de ficar sob uma cachoeira congelante por longos períodos de tempo, em meditação, com o objetivo de limpar a mente, o corpo e o espírito.  O’Sensei praticava com freqüência esse tipo de misogi (limpeza espiritual), mas para O’Sensei, o aikidô era sua prática diária de misogi.  Por esta razão, o fundador se preparava para o misogi de seu treinamento de aikidô praticando técnicas de chinkon-kishin em seus aquecimentos.

A prática do chinkon-kishin tradicional quase saiu de uso na tradição Xintoísta até que Onisaburo Deguchi reviveu a prática dentro da seita religiosa Omoto Kyo Shinto, no início da década de 1900. Quando O’Sensei conheceu Onisaburo e abraçou a religião Omoto ele também abraçou a prática de chinkon-kishin como era ensinado e praticado por OnisaburoO’Sensei abraçou a riqueza da cultura e da miologia xintoísta desde sua infância. A Omoto Kyo, como uma forma nova de uma religião antiga e a liderança carismática de Onisaburo tiveram um profundo efeito sobre o caminho espiritual de O’Sensei.

De acordo com Yasuaki Deguchi, neto do líder da Omoto Onisaburo Deguchi, Onisaburo recebeu seu conhecimento de chinkon-kishin por uma revelação que teve ao fazer parte de práticas ascéticas no monte Takakuma.  Ele também se referiu a um método de kishin mencionado na seção relativa ao Imperador Chuai no Kojiki (registros sobre assuntos ancestrais) e nos registros da Imperatriz Jinko no Ni-honshoki (Crônicas do Japão). Nos anos posteriores a prática de chinkon-kishin foi abandonada na religião Omoto Kyo devido ao efeito profundo e freqüentemente surpreendente que tinha sobre os praticantes. Mas a prática nunca foi abandonada por O’Sensei e é encontrada misturada aos aquecimentos nos dojô de todos os lugares.

São várias as formas de chinkon-kishin que O’Sensei integrou aos aquecimentos do treinamento do aikidô.  Estes exercícios, mesmo que em geral não sejam claramente compreendidos, mesmo pelos uchideshi de O’Sensei, ainda são praticados em muitos dojô de aikidô em todo o mundo. Eles são praticados mais por seus óbvios benefícios ao físico. Eles também são praticados, em parte, por seu significado histórico. Os alunos do fundador que mantiveram a prática diferem de forma significante sobre os detalhes bem como sobre o nível de importância que colocam nessa prática, e a maioria deles admitem não compreendê-la. Um aluno de O’Sensei disse… “Nós a praticamos porque é muito importante… O’Sensei disse que descobriríamos o significado destas técnicas por nós mesmos”.

Furitama: “sacudindo a alma”, “acomodando o ki”, ou “vibração do espírito”

O Furitama é praticado de pé com as pernas afastadas na distância dos ombros. As mãos são colocadas juntas, com a direita sobre a esquerda. Deixa-se um pequeno espaço entre as mãos. As mãos são colocadas na frente do abdômen e sacudidas com vigor para cima e para baixo. Inale até ao topo da cabeça, que estará naturalmente levantada. Então exale até a sola dos pés, enquanto continua a sacudir as mãos para cima e para baixo. O exercício é finalizado em silêncio e em kishin parado e meditativo.

Este exercício de chinkon tem a intenção de reunir o espírito da divindade ao seu centro… acalmando o espírito… vibrando a alma.  É uma maneira eficiente de acalmar seus pensamentos, centrar sua mente e focalizar sua intenção.

Outra forma de “vibração do espírito” pode ser vista com a seguinte prática: levantam-se as mãos acima da cabeça, sacudindo-as vigorosamente com os dedos estendidos. Depois elas são jogadas para baixo em direção ao chão. O fundador falava de “sacudir a poeira das juntas” ao se referir a este exercício para soltar os pulsos. Para ele era um movimento vitalizante para sacudir as impurezas do corpo…uma forma de misogi para se preparar para a prática do aikidô.

Torifune: “remar o barco” ou “pássaro remando”

Torifune, também conhecido como kogi-fune ou o exercício de remar envolve movimentos de braços e corpo como o movimento de remar um barco. De acordo com o Kami no Michi, um importante texto sobre o Xintoísmo, as mãos se fecham com os polegares para dentro, e o movimento das mãos é bastante linear.  As imagens de O’Sensei o mostram com os punhos fechados na forma tradicional de soco, com os polegares por fora.  Em um antigo vídeo ele pode ser visto praticando torifune tanto com movimentos lineares de socos quanto com movimentos ritmados de remadas. Hoje em dia torifune parece ser mais praticado com as mãos abertas, os dedos apontando para baixo com os punhos sendo jogados para frente e puxados de volta para os quadris.

Primeiro se coloca o pé esquerdo para frente. Enquanto joga as mãos ou punhos para frente, você vocaliza o som “eh”.  Ao puxar as mãos, você vocaliza “ho”.  Esse empurrar/puxar é feito de forma ritmada por 20 vezes, e então você coloca o pé direito à frente. Agora, ao levar as mãos para frente você vocalize “ee”.  Ao puxá-las você vocaliza “sa”. Em algumas escolas é feita uma terceira rodada novamente com o pé esquerdo à frente, com o som de “eh” tanto ao levar as mãos para frente como para trás.

Ibuki Kokyu – Respiração Profunda

Ten-no-kokyu: Respiração do céu

A respiração do céu envolve uma inalação profunda, com as mãos juntas na frente do corpo, as mãos são erguidas na postura de ten-no-kokyu (respiração do céu), juntas e acima da cabeça. Então passamos para a respiração da terra…

Chi-no-kokyu: Respiração da terra

A respiração da terra é feita exalando-se lentamente e levando-se as mãos para baixo na postura de chi-no-kokyu (respiração da terra). As mãos são levadas para baixo ao lado do corpo como se estivessem empurrando para baixo o universo, até que as mãos se juntam na frente do abdômen para completar o círculo.

Geralmente o ciclo de ten-no-kokyu e chi-no-kokyu é repetido 3 vezes sucessivas. Quando praticado por si só, em geral há uma pausa silenciosa de kishin no final do ciclo de respirações. Quando é combinado com outros exercícios a transição muda e o kishin pode ser levado para o final das combinações.

Furitama, torifune, e ibuki são freqüentemente praticados juntos em diversas combinações. As vezes furitama é entremeado com ibuki.  Outras vezes furitama é entremeado com torifune.  Essas práticas variam muito de uma associação de aikidô para outra, e também de dojô para dojô, mesmo dentro das associações.

É interessante se notar que as associações de aikidô que foram muito influenciadas por Koichi Tohei praticam muitos outros exercícios de kihon undo que Tohei adotou e ampliou… considerados capazes de ajudar a manifestar o ki.  Quando seus interesses se afastaram das formas antigas de Xintoísmo e sua atenção se focalizou nos princípios do ki, ele pegou alguns exercícios de chinkon-kishin e os modificou para seu catálogo recentemente codificado de exercícios de ki.

Quando comecei a praticar o aikidô, há quase 20 anos atrás, não me lembro de ter visto Mitsugi Saotome Sensei nos direcionando para qualquer tipo de chinkon-kishin.  Isso pode ter acontecido porque O’Sensei diminuiu a ênfase da prática em seus últimos anos. Ou porque o O’Sensei deixou que seus alunos, especialmente nos seus últimos anos, ignorassem ou pensassem por si próprios sobre as antigas práticas xintoístas, que pareciam cada vez mais anacrônicas em um Japão moderno.  Alguns anos depois percebi que Saotome Sensei apresentou furitama, torifune, e ibuki kokyu a seus alunos, possivelmente ao redescobrir suas próprias raízes do aikidô e em uma demonstração de respeito às tradições mais antigas.

Como as origens e motivações destas técnicas são raramente ensinadas ou discutidas no dojô… os alunos ficam freqüentemente imaginando o que estão fazendo ou como absorver de forma apropriada os movimentos que estão acompanhando. Uma compreensão baseada na fonte e da história destes movimentos misteriosos nos ajuda a criar uma base a partir da qual vamos enriquecer e desenvolver nossa prática pessoal. Que sua prática seja bem fundamentada e proveitosa.

Tradução: Jaqueline Sá Freire (Brazil Aikikai – Hikari Dojo – Rio de Janeiro)

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Colaboração: http://hikari1.multiply.com/

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